Moraes teria se surpreendido com novo Senado, e avanço da direita muda cenário político em torno do STF

O resultado das eleições de 2026 para o Senado Federal provocou uma reação de surpresa no ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo informações publicadas pela jornalista Bela Megale, de O Globo. De acordo com a apuração, Moraes teria comentado com interlocutores do meio jurídico que houve uma “reversão” do cenário que ele esperava encontrar após as urnas. A informação foi posteriormente repercutida pelo Jornal da Cidade Online, mas é importante destacar que se trata de um relato de bastidores atribuído a pessoas próximas ao ministro, e não de uma declaração pública ou nota oficial divulgada por Moraes.
Segundo a coluna, Moraes trabalhava anteriormente com uma avaliação transmitida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), de que candidatos de centro teriam desempenho suficiente para impedir a formação de uma maioria parlamentar fortemente crítica ao Supremo. O resultado de 4 de outubro, porém, modificou essa configuração. Partidos e candidatos identificados com a direita conquistaram parte expressiva das 54 vagas que estavam em disputa, ampliando significativamente sua presença na Casa a partir de fevereiro de 2027.
O PL foi um dos principais beneficiados pelas urnas. O partido conquistou 19 das 54 cadeiras disputadas e chegará à próxima legislatura com uma bancada de aproximadamente 28 senadores, tornando-se a maior representação individual da Casa. Além disso, parlamentares eleitos por Republicanos, Novo, PP, Podemos e outras legendas também mantêm posições críticas a diferentes decisões do Supremo, embora não exista uniformidade entre esses partidos sobre todas as propostas envolvendo a Corte.
É justamente essa combinação que passou a receber atenção dentro do STF. Reportagem do UOL publicada depois do primeiro turno informou que integrantes da Corte foram surpreendidos pelo tamanho da votação obtida por candidaturas conservadoras e passaram a avaliar quais consequências a nova composição poderia produzir na relação institucional entre Supremo e Senado. Segundo a apuração, projeções feitas nos bastidores apontam que mais de 50 dos futuros senadores já manifestaram, em algum momento, apoio a iniciativas críticas ao tribunal ou ao impeachment de ministros. Essa projeção não significa, porém, que exista hoje um bloco formal de mais de 50 votos comprometidos com uma votação específica.
Alexandre de Moraes ocupa posição central nesse debate porque vários parlamentares eleitos defenderam durante a campanha a análise de pedidos de impeachment contra ele. O próprio Senado possui atualmente representações em tramitação contra o ministro. Uma delas, a Petição 20/2026, foi apresentada em setembro por senadores e outros signatários e continua aguardando despacho. Outra representação, protocolada no fim de setembro, também permanece formalmente em tramitação. A existência desses pedidos, contudo, não significa reconhecimento de que Moraes tenha cometido crime de responsabilidade; são denúncias que ainda dependem das etapas previstas na legislação.
O Senado possui papel constitucional específico nesse tipo de processo. O artigo 52 da Constituição estabelece que cabe à Casa processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. A Lei nº 1.079, de 1950, define as hipóteses legais e disciplina a apresentação das denúncias. De acordo com explicação oficial do próprio Senado, uma representação é protocolada como petição, passa por análise técnica e pode avançar para deliberação parlamentar. Historicamente, nenhum ministro do Supremo foi afastado definitivamente por um processo desse tipo.
A presidência do Senado tem papel relevante justamente nas etapas iniciais de tramitação das representações. Esse elemento explica por que o futuro comando da Casa passou a ser considerado tão importante depois das eleições. Segundo a reportagem de O Globo, Moraes acreditava que Alcolumbre teria condições de conquistar novo mandato como presidente do Senado e funcionaria como um interlocutor importante entre a Corte e os parlamentares. A nova correlação de forças, entretanto, abriu dúvidas sobre a capacidade de Alcolumbre de reunir os votos necessários para permanecer no cargo.
A Folha de S.Paulo informou nesta sexta-feira que o fortalecimento do PL e de seus aliados tornou a sucessão nas presidências do Senado e da Câmara uma das principais disputas políticas para 2027. No Senado, nomes como Rogério Marinho e Tereza Cristina passaram a aparecer entre as alternativas discutidas por setores da direita, enquanto Alcolumbre tenta preservar apoios em partidos de centro. Essas articulações ainda estão em andamento, e nenhuma candidatura à presidência da Casa pode ser tratada neste momento como definida.
O resultado eleitoral também intensificou as discussões entre integrantes do chamado centrão. A Folha informou que parlamentares desse grupo passaram a admitir apoio ao impeachment de pelo menos um ministro do Supremo, enquanto outros defendem reformas institucionais menos drásticas. A mesma reportagem estimou em pelo menos 49 o número de futuros senadores que já demonstraram disposição para discutir o afastamento de algum integrante da Corte. A destituição definitiva de um ministro, entretanto, exige processo próprio e votação qualificada no Senado.
É nesse contexto que a reação atribuída a Moraes ganha relevância. Segundo Bela Megale, o ministro não esperava que o resultado eleitoral produzisse uma Casa com tamanho número de parlamentares críticos à atuação recente do STF. A colunista relata ainda que Moraes teria reconhecido uma mudança em relação às expectativas anteriores, baseadas em avaliações de que candidatos mais próximos ao centro político ocupariam parcela maior das vagas.
A reportagem, porém, não apresenta uma declaração pública na qual Moraes manifeste medo, desespero ou expectativa de que sofrerá impeachment. Essas caracterizações aparecem em comentários e interpretações políticas posteriores. O Jornal da Cidade Online, por exemplo, conclui que o ministro estaria “com medo” e afirma que seu impeachment estaria “precificado”. Essas conclusões são posições editoriais do veículo e vão além do fato confirmado pela apuração original: interlocutores dizem que Moraes demonstrou surpresa com o resultado das urnas.
Há também divergências dentro do próprio campo político que elegeu os novos senadores. Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, afirmou após o primeiro turno que o partido deveria agir com equilíbrio ao discutir impeachment de ministros e ressaltou que cada senador possui independência. A manifestação mostra que a existência de uma bancada numericamente expressiva não significa necessariamente que todos seus integrantes votarão da mesma maneira em eventual processo.
Ao mesmo tempo, parlamentares recém-eleitos fizeram compromissos públicos diferentes. Alguns disseram que pretendem trabalhar diretamente pela abertura de processos contra ministros do STF, enquanto outros defendem alterações legislativas relacionadas às competências da Corte. Essas posições poderão ter importância a partir de 2027 porque o Senado também participa da aprovação de futuros indicados ao Supremo. Uma indicação presidencial ao STF precisa passar por sabatina na Comissão de Constituição e Justiça e posteriormente ser aprovada pelo plenário do Senado.
A nova composição, portanto, altera objetivamente o ambiente institucional no qual STF e Senado deverão se relacionar. Isso não significa que impeachment de Moraes ou de qualquer outro ministro esteja automaticamente encaminhado. Para que uma representação resulte em afastamento definitivo, é necessário cumprir as etapas legais, garantir direito de defesa e reunir os votos previstos para a decisão final.
O fato novo revelado pelas reportagens é mais específico: Alexandre de Moraes teria demonstrado surpresa com o resultado das eleições para o Senado porque esperava uma composição mais próxima ao centro e menos favorável a iniciativas contra o STF. A eleição de um número elevado de parlamentares críticos à Corte frustrou essa expectativa e colocou a relação entre Senado e Supremo entre os principais temas institucionais para 2027.
A partir de agora, duas movimentações deverão ser acompanhadas separadamente: a formação efetiva dos blocos parlamentares e a disputa pela presidência do Senado. Somente depois dessas definições será possível saber como as representações contra ministros do Supremo serão tratadas na próxima legislatura. Por enquanto, há uma mudança expressiva na composição política da Casa, diversos pedidos contra Moraes permanecem registrados e parlamentares eleitos já anunciaram posições sobre o tema — mas nenhuma decisão de impeachment está tomada.



