Giro das Eleições: Disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro pode ser decidida já no 1º turno?

A disputa pela Presidência da República entra em uma fase de maior concentração entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a pouco mais de duas semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Segundo análise publicada pela Veja com base no Datafolha divulgado em 17 de setembro, os dois candidatos reúnem mais de 80% dos votos válidos considerados na pesquisa. O cenário aumenta a importância dos demais candidatos e coloca o chamado voto útil no centro das estratégias das campanhas.
No levantamento, quando são considerados apenas os votos válidos — excluindo brancos e nulos, como ocorre na apuração oficial — Lula aparece com 43%, enquanto Flávio registra 39%. Os demais candidatos somam os 18 pontos restantes. Para vencer no primeiro turno, é necessário ultrapassar a marca de 50% dos votos válidos. Dessa forma, os números apresentados pelo Datafolha mostram que nenhum dos dois atingia naquele momento o percentual necessário para encerrar a disputa na primeira votação.
A pesquisa, entretanto, não permite afirmar qual será o resultado da eleição. O levantamento representa um retrato das intenções de voto no período em que as entrevistas foram realizadas, entre 15 e 17 de setembro. Foram ouvidos 2.001 eleitores, e a margem de erro é de dois pontos percentuais. Além disso, diferentes institutos registraram números distintos na mesma semana, reforçando que pesquisas eleitorais devem ser analisadas considerando metodologia, período de coleta e margem de erro.
Um dos pontos que passaram a chamar atenção é o espaço ocupado pelos candidatos que aparecem depois de Lula e Flávio. De acordo com o levantamento citado pela Veja, Augusto Cury aparece com 6% dos votos válidos, seguido por Ronaldo Caiado, com 5%. Renan Santos tem 3%, Romeu Zema aparece com 2%, enquanto Rui Costa Pimenta e Samara Martins registram 1% cada. Esse conjunto de candidaturas representa uma parcela relevante do eleitorado que ainda pode alterar a distribuição dos votos até o dia da votação.
É nesse contexto que entra o conceito de voto útil. A estratégia consiste em convencer eleitores que apoiam candidatos com menor percentual nas pesquisas a escolherem um dos nomes que aparecem na frente, especialmente quando existe a intenção de evitar uma segunda votação. A análise da Veja observa que parte dos votos de candidatos posicionados à direita pode ser disputada por Flávio, enquanto Lula também busca ampliar sua votação entre eleitores que atualmente aparecem vinculados a outras candidaturas. Essa dinâmica, porém, não significa que esses eleitores necessariamente migrarão de candidato.
Outro grupo importante é formado pelos eleitores que ainda não definiram sua escolha ou que indicam voto branco ou nulo. No cenário apresentado pela Veja, 6% aparecem nessa última categoria, enquanto 3% são classificados como indecisos no levantamento estimulado. Na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, o percentual de indecisos é maior: 21%. Lula aparece com 35% e Flávio com 26% nesse formato.
A concentração da disputa também influencia a comunicação das campanhas. Tanto Lula quanto Flávio têm utilizado a possibilidade de uma vitória no primeiro turno em suas declarações públicas. Flávio chegou a divulgar mensagens defendendo a ideia de resolver a eleição já na primeira votação, enquanto Lula também afirmou que pretende vencer no dia 4 de outubro, embora tenha reconhecido a possibilidade de a disputa seguir para uma segunda etapa. São estratégias de mobilização adotadas pelos próprios candidatos e não previsões sobre o resultado eleitoral.
O histórico recente ajuda a explicar por que o primeiro turno ganhou tanta importância no discurso político. Em 2022, Lula terminou a primeira votação com 48,4% dos votos válidos, enquanto Jair Bolsonaro teve 43,2%. A diferença em relação aos 50% necessários fez com que a eleição avançasse para o segundo turno. Desde a redemocratização, segundo o levantamento histórico citado pela Veja, apenas Fernando Henrique Cardoso conseguiu vencer uma eleição presidencial no primeiro turno, em 1994 e 1998.
As pesquisas divulgadas nos últimos dias mostram ainda que a fotografia eleitoral pode variar conforme o instituto e o período de coleta. O Datafolha apontou Lula com 39% e Flávio com 36% no primeiro turno, enquanto levantamentos divulgados na mesma semana apresentaram outros percentuais. A Futura/100% Cidades, por exemplo, registrou 38,3% para Lula e 37,7% para Flávio, enquanto a Atlas/Bloomberg indicou 44,1% e 41,7%, respectivamente. Esses resultados não devem ser somados ou tratados como uma previsão única, pois cada pesquisa possui metodologia própria.
Com a aproximação de 4 de outubro, portanto, o cenário eleitoral passa a ser marcado por uma disputa concentrada, pela busca dos votos ainda distribuídos entre outras candidaturas e pela tentativa de conquistar eleitores indecisos. A possibilidade de uma decisão no primeiro turno está presente no discurso das campanhas, mas os próprios números divulgados até agora mostram que ainda existe uma parcela significativa do eleitorado fora dos dois principais nomes. O resultado efetivo dependerá dos votos registrados nas urnas, e não apenas das intenções medidas pelas pesquisas.



