O governo de Donald Trump elevou o tom das críticas ao Brasil ao afirmar que o país não estaria adotando medidas suficientes para enfrentar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, duas das principais organizações criminosas brasileiras com atuação além das fronteiras nacionais. A avaliação consta de um relatório anual encaminhado pelo governo norte-americano ao Congresso dos Estados Unidos e representa uma mudança importante no discurso de Washington em relação ao Brasil.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, o documento afirma que as duas organizações ampliaram sua presença internacional e relaciona essa expansão ao papel do Brasil nas rotas utilizadas pelo tráfico internacional de cocaína. Na avaliação apresentada pelo governo norte-americano, a atuação dessas organizações deixou de ser vista apenas como uma questão interna brasileira e passou a ser tratada também como um assunto relacionado à segurança e aos interesses dos Estados Unidos e de outros países.
O relatório tem peso dentro da política externa norte-americana porque é produzido anualmente e encaminhado ao Congresso com informações sobre países envolvidos na produção, no trânsito ou no consumo de drogas ilícitas, além de avaliar as medidas adotadas pelas respectivas autoridades. O documento pode servir como referência para decisões relacionadas à cooperação internacional, políticas de combate ao tráfico, sanções e outras medidas diplomáticas.
Um dos pontos que mais chamam atenção, porém, é a situação específica do Brasil dentro da avaliação. Apesar da crítica direta, o país não aparece, segundo a reportagem da Folha, entre os principais produtores ou rotas de drogas listados pelo governo norte-americano, nem foi incluído formalmente na categoria de governos considerados como tendo falhado de maneira demonstrável em suas obrigações de combate ao narcotráfico. Mesmo assim, recebeu uma reprimenda nominal relacionada ao PCC e ao Comando Vermelho.
A declaração representa, portanto, uma cobrança direcionada principalmente à dimensão internacional das organizações criminosas brasileiras. O governo Trump sustenta que a influência dessas estruturas ultrapassou o território brasileiro. Essa percepção também aparece em documentos anteriores dos Estados Unidos: o Departamento do Tesouro já havia classificado o PCC como uma organização criminosa transnacional e afirmou que sua atuação alcançava diferentes regiões do mundo. Em julho de 2026, o órgão voltou a aplicar sanções contra pessoas e empresas brasileiras apontadas como relacionadas ao PCC e a esquemas de movimentação de recursos provenientes do tráfico.
A pressão norte-americana ganhou novo capítulo em maio deste ano, quando o secretário de Estado Marco Rubio anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como Specially Designated Global Terrorists (SDGTs). Na mesma ocasião, o Departamento de Estado anunciou a intenção de classificá-los também como Foreign Terrorist Organizations (FTOs), medida prevista para entrar em vigor em 5 de junho. A decisão ampliou as possibilidades de aplicação de restrições financeiras e outras medidas contra integrantes e estruturas relacionadas às organizações.
A mudança de posição em relação ao Brasil fica ainda mais evidente quando comparada ao relatório anterior. De acordo com a Folha de S.Paulo, o documento de 2025 não fazia menção ao Brasil nesse contexto. Na avaliação de 2026, entretanto, o país passou a receber uma crítica direta relacionada à expansão internacional do PCC e do Comando Vermelho. Para Washington, portanto, o debate deixou de estar concentrado apenas na origem ou nas rotas das drogas e passou a envolver também a capacidade de organizações brasileiras estabelecerem conexões fora do território nacional.
Outro ponto destacado no relatório é a mudança na avaliação sobre a Venezuela. Segundo a reportagem, o país continua sendo considerado relevante nas rotas internacionais do tráfico de drogas, mas deixou de ser classificado como governo que não cumpre suas obrigações de combate ao narcotráfico. Washington relacionou essa mudança ao aumento da cooperação com o governo interino de Delcy Rodríguez, indicando uma alteração na relação diplomática dos Estados Unidos com Caracas.
A nova posição de Washington coloca o Brasil diante de uma questão que ultrapassa o debate tradicional sobre segurança pública. A expansão internacional de organizações criminosas, a movimentação financeira entre diferentes países e o uso de rotas internacionais passaram a ocupar espaço maior na agenda dos Estados Unidos. O Departamento do Tesouro, por exemplo, afirmou em 2026 que redes ligadas ao PCC possuem presença em países como Reino Unido, Turquia e Japão e também identificou atividades relacionadas à movimentação de recursos nos Estados Unidos.
A acusação do governo Trump, portanto, não significa que o Brasil tenha sido formalmente colocado na lista de países considerados grandes produtores ou que tenham descumprido suas obrigações antidrogas. O ponto central da crítica é outro: Washington passou a destacar diretamente a atuação internacional do PCC e do Comando Vermelho e a cobrar do governo brasileiro medidas consideradas mais firmes contra essas organizações. A mudança sinaliza uma nova etapa na discussão entre Brasil e Estados Unidos sobre tráfico internacional, cooperação de segurança e atuação de grupos criminosos que ultrapassam as fronteiras nacionais.







