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Reforma eleitoral beneficia sigla que tem ligação com Igreja Universal

Uma mudança nas regras eleitorais brasileiras, criada com a intenção de reduzir a influência do dinheiro nas campanhas, pode ter produzido um efeito inesperado nas eleições. Um estudo realizado por pesquisadores de instituições como Insper, Harvard e Princeton indica que os limites mais rígidos para os gastos eleitorais beneficiaram candidaturas do Republicanos, legenda historicamente associada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A pesquisa aponta que a estrutura de mobilização da igreja teria dado aos candidatos ligados ao partido uma vantagem em municípios onde as campanhas passaram a contar com menos recursos financeiros. O resultado coloca em discussão como diferentes organizações conseguem se adaptar às mudanças nas regras eleitorais e transformar estruturas já existentes em ferramentas importantes durante uma disputa política.

A alteração analisada pelos pesquisadores ocorreu em 2015, em um período marcado pelas discussões sobre financiamento político e pelos desdobramentos da Operação Lava Jato. Naquele momento, o Supremo Tribunal Federal proibiu doações empresariais para campanhas, enquanto o Congresso aprovou regras que estabeleceram limites para os valores que poderiam ser gastos por candidatos e partidos. A intenção era diminuir o peso do poder econômico nas eleições e criar condições mais equilibradas entre os concorrentes. A nova regulamentação passou a ser aplicada nas eleições municipais de 2016 e alterou de maneira significativa a forma como candidatos poderiam estruturar suas campanhas. Segundo o estudo, porém, a redução dos recursos disponíveis também aumentou a importância de redes de mobilização que não dependiam diretamente do financiamento eleitoral tradicional.

Para chegar às conclusões, os pesquisadores analisaram uma particularidade da regra que estabeleceu os tetos de gastos para as eleições municipais. Os limites de 2016 foram calculados com base nas despesas registradas na eleição anterior, realizada em 2012. Entretanto, havia um ponto de corte que criou diferenças entre municípios com níveis de gastos bastante semelhantes. Cidades cujo maior gasto registrado em 2012 estava abaixo do limite passaram a ter um teto fixo de aproximadamente R$ 108.039 em 2016, considerando os valores corrigidos pela inflação. Já municípios que ficaram logo acima do corte receberam um limite de aproximadamente R$ 133.700. Para os pesquisadores, essa diferença criou uma espécie de experimento natural, permitindo comparar localidades parecidas que, por causa da regra, ficaram submetidas a restrições distintas de recursos durante a campanha.

A partir dessa comparação, o estudo procurou identificar quais grupos políticos tiveram maior capacidade de adaptação diante da redução do dinheiro disponível para as campanhas. De acordo com Lucas Novaes, professor de Ciência Política do Insper e um dos autores da pesquisa, a Igreja Universal possui uma estrutura que pode funcionar como uma rede de mobilização independente da lógica tradicional dos partidos. O trabalho, desenvolvido em parceria com Melani Cammett, de Harvard, e Guadalupe Tuñón, de Princeton, destaca fatores como presença territorial, capacidade de organização e centralização das atividades. Nesse cenário, a existência de uma rede previamente estruturada poderia reduzir a dependência de mecanismos de campanha que normalmente exigem recursos financeiros, especialmente em municípios onde os candidatos passaram a enfrentar limites mais baixos de gastos.

O estudo aponta ainda que essa característica teria impacto direto na disposição de candidatos do Republicanos em disputar eleições nos municípios mais afetados pelas restrições. Com menos dinheiro disponível para ações tradicionais de campanha, como a contratação de equipes e cabos eleitorais, candidatos que contam com redes próprias de mobilização podem encontrar condições mais favoráveis para competir. A pesquisa sustenta que a estrutura associada à Universal oferece uma forma alternativa de alcançar eleitores e organizar atividades políticas, o que pode ter contribuído para ampliar a competitividade do Republicanos em determinadas localidades. A análise não significa, porém, que todos os resultados eleitorais do partido possam ser explicados exclusivamente pela presença da igreja, mas indica uma relação entre as novas regras de financiamento e a capacidade de mobilização de organizações religiosas.

A conclusão dos pesquisadores chama atenção justamente por mostrar que uma política criada para tornar as disputas eleitorais menos dependentes de recursos financeiros pode produzir resultados diferentes entre partidos com estruturas organizacionais distintas. Ao reduzir a possibilidade de campanhas mais caras, a legislação também pode aumentar o valor de redes de relacionamento, presença territorial e mobilização já consolidadas antes do período eleitoral. No caso analisado, o Republicanos teria encontrado uma vantagem relativa em razão da estrutura associada à Igreja Universal, segundo os resultados apresentados pelo estudo. A pesquisa, portanto, amplia o debate sobre os efeitos das regras de financiamento eleitoral no Brasil e levanta uma questão importante para futuras reformas: limitar o dinheiro das campanhas pode equilibrar a disputa, mas também pode favorecer organizações que já possuem outras formas eficientes de mobilizar eleitores.

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