André Mendonça faz discurso sobre a realidade dentro do STF

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), compartilhou uma avaliação pessoal sobre os desafios enfrentados desde que assumiu uma cadeira na mais alta instância do Judiciário brasileiro. Durante o encerramento do 5º Seminário Nacional da Associação Nacional de Magistrados Evangélicos (Anamel), realizado na sexta-feira (21) no Instituto Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo, Mendonça afirmou que os primeiros anos de sua passagem pelo Supremo foram especialmente difíceis. Ao recordar esse período, classificou os dois primeiros anos no tribunal como de “muita infelicidade”. A declaração chamou atenção por apresentar uma perspectiva pouco habitual sobre uma função normalmente associada a prestígio e influência institucional, destacando as responsabilidades e pressões que acompanham a atuação de um ministro responsável por decisões de grande repercussão nacional.
Na avaliação apresentada durante o encontro, alcançar uma das posições mais relevantes da carreira jurídica não significa necessariamente encontrar satisfação pessoal. Mendonça argumentou que a função no Supremo envolve cobranças, responsabilidade e consequências que muitas vezes não são percebidas fora do ambiente institucional. O ministro procurou diferenciar a dimensão pública do cargo das experiências pessoais de quem ocupa a função, afirmando que posições de autoridade podem representar mais obrigações do que benefícios. A manifestação teve caráter pessoal e não deve ser interpretada como uma avaliação institucional do funcionamento do STF ou como uma descrição da experiência dos demais integrantes da Corte. Trata-se da percepção do próprio Mendonça sobre sua trajetória desde que tomou posse no Supremo, em dezembro de 2021, após ser indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro e aprovado pelo Senado.
Outro ponto abordado pelo ministro foi a relação entre carreira, remuneração e expectativas financeiras. Mendonça afirmou que um magistrado “não pode ter a pretensão de ficar rico” apenas em razão da profissão. Segundo ele, embora integrantes da magistratura tenham remuneração elevada quando comparada à renda média brasileira, isso não significa ausência de preocupações financeiras ou liberdade irrestrita para manter qualquer padrão de consumo. O ministro reconheceu que os magistrados ocupam uma condição privilegiada em relação à maior parte da população, mas defendeu que os profissionais da Justiça mantenham planejamento financeiro e compreendam os limites associados à própria remuneração. A mensagem foi direcionada principalmente aos participantes do evento e inserida em uma reflexão mais ampla sobre as motivações de quem escolhe seguir uma carreira pública.
Mendonça também relacionou suas experiências pessoais a uma reflexão sobre poder e realização. Segundo o ministro, transformar cargos, influência ou patrimônio em objetivos centrais pode gerar frustração, mesmo quando uma pessoa consegue alcançar posições consideradas importantes profissionalmente. Nesse contexto, recomendou aos magistrados presentes que não depositem suas expectativas exclusivamente no poder ou no dinheiro. O discurso esteve alinhado ao tema do seminário, intitulado “Justiça Servidora: Diálogo, Inclusão e Pacificação Social”, cuja programação reuniu representantes do Judiciário, do Ministério Público, da advocacia, da academia e de outros setores ligados ao Direito. Mendonça participou da coordenação acadêmica do evento e foi responsável pela conferência de encerramento, dedicada à discussão sobre o papel do Poder Judiciário na sociedade.
Durante sua participação, o ministro ainda tratou da presença de evangélicos nas instituições jurídicas e recordou a repercussão de sua própria indicação ao STF. Mendonça chegou à Corte cercado por referências à expressão “terrivelmente evangélico”, utilizada por Bolsonaro ao falar sobre o perfil que pretendia indicar para uma vaga no Supremo. De acordo com o relato feito no seminário, essa exposição também influenciou a maneira como passou a administrar sua atividade religiosa após assumir o cargo. Mendonça afirmou que decidiu se afastar temporariamente de pregações e de outras atividades eclesiásticas públicas, buscando separar sua responsabilidade institucional da atuação religiosa. Ao abordar o tema, defendeu que pessoas de diferentes crenças possam disputar espaços no sistema de Justiça pelas vias previstas em lei, como concursos públicos e demais processos de seleção.
As declarações revelam uma dimensão pessoal da trajetória de um integrante do Supremo, mas precisam ser compreendidas dentro do contexto em que foram apresentadas. Mendonça não anunciou intenção de deixar o tribunal nem afirmou que sua experiência atual permaneça marcada pela mesma insatisfação mencionada ao recordar os primeiros anos. Sua fala teve principalmente caráter reflexivo e foi direcionada a profissionais do Direito reunidos em um seminário voltado à discussão sobre ética, serviço público e atuação do Judiciário. Ao colocar em debate temas como remuneração, responsabilidade, fé, poder e satisfação profissional, o ministro apresentou sua própria experiência como exemplo de que ascensão na carreira não elimina dificuldades pessoais ou profissionais. Mais do que uma crítica direta ao Supremo, o discurso foi estruturado como uma reflexão sobre as expectativas criadas em torno de posições de destaque e sobre as responsabilidades que acompanham o exercício da magistratura.



