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Negociação entre Brasil e EUA sofre impacto da eleição, avaliam ex-embaixadores

As negociações entre Brasil e Estados Unidos em torno das tarifas comerciais impostas pelo governo norte-americano foram impactadas pelo cenário eleitoral brasileiro, avaliam ex-embaixadores ouvidos pelo Metrópoles. Na visão dos diplomatas, a disputa política interna passou a influenciar a condução das tratativas entre os dois países, dificultando uma solução para o impasse comercial.

Nas últimas semanas, os Estados Unidos anunciaram novas tarifas sobre produtos brasileiros, ampliando as barreiras comerciais mesmo após meses de diálogo entre representantes dos dois governos. A decisão elevou a tensão diplomática e intensificou o debate sobre a estratégia adotada pelo Brasil diante das medidas implementadas pela gestão do presidente Donald Trump.

Para o ex-embaixador Rubens Barbosa, que representou o Brasil em Washington e em Londres, a política externa brasileira acabou sendo contaminada pelo ambiente eleitoral. Segundo ele, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a tratar o conflito comercial também sob uma perspectiva política interna, o que, em sua avaliação, dificulta uma negociação baseada exclusivamente nos interesses econômicos do país.

Barbosa argumenta que a administração Trump alterou a forma de conduzir as relações comerciais internacionais, priorizando uma postura mais unilateral e focada na defesa dos interesses norte-americanos. Para o diplomata, esse comportamento não é direcionado apenas ao Brasil, mas faz parte de uma estratégia mais ampla adotada pelos Estados Unidos em relação a diversos parceiros comerciais.

Na avaliação do ex-embaixador, é necessário separar a política externa das disputas partidárias. Segundo ele, quando questões eleitorais passam a influenciar decisões diplomáticas, o país pode perder espaço em negociações estratégicas. Barbosa também considera que o discurso brasileiro sobre a possibilidade de aplicar medidas de reciprocidade contribui para elevar o tom das relações entre Brasília e Washington.

Ainda de acordo com o diplomata, o período eleitoral torna mais difícil qualquer tentativa de avanço nas conversas entre os dois países. Ele acredita que a campanha presidencial tende a ampliar o uso político do tema, reduzindo o espaço para negociações técnicas e aumentando a possibilidade de interferências externas no debate público brasileiro.

Outro ex-embaixador ouvido pela reportagem, que preferiu não ter o nome divulgado, compartilha avaliação semelhante. Para ele, o governo brasileiro buscou apresentar as tarifas impostas pelos Estados Unidos como uma medida direcionada especificamente ao Brasil, embora a política comercial adotada por Donald Trump também tenha atingido diversos outros países.

Na visão desse diplomata, a narrativa construída em torno do conflito comercial possui forte componente eleitoral. Segundo ele, confrontar os Estados Unidos pode gerar ganhos políticos internos, especialmente em um ambiente de polarização, no qual o discurso da defesa da soberania nacional costuma mobilizar parte do eleitorado.

Ao mesmo tempo, o aumento das tarifas também passou a ser utilizado pela oposição como argumento político. O senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na disputa presidencial, tem atribuído as medidas adotadas pelos Estados Unidos à condução da política externa do atual governo. Já aliados do Palácio do Planalto defendem que as ações norte-americanas representam uma tentativa de pressionar o Brasil e influenciar o cenário eleitoral.

O ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Ricupero também analisou o episódio. Para ele, a postura dos Estados Unidos possui motivação política e ideológica, o que teria reduzido significativamente as chances de uma negociação efetiva entre os dois governos.

Ricupero afirma que, embora Donald Trump tenha adotado uma política comercial protecionista em relação a vários países, houve um tratamento especialmente rigoroso aos produtos brasileiros. Em sua avaliação, não existiu disposição suficiente por parte das autoridades norte-americanas para buscar uma solução negociada durante o processo.

No Palácio do Planalto, integrantes do governo acreditam que as tarifas também possuem objetivo político e pretendem enfraquecer a imagem do governo Lula durante o período eleitoral. Segundo essa avaliação, as medidas poderiam favorecer indiretamente adversários políticos do presidente brasileiro.

Diante desse cenário, Ricupero considera reduzidas as possibilidades de reversão das tarifas enquanto Donald Trump permanecer na Presidência dos Estados Unidos. Para ele, uma negociação mais ampla poderá ocorrer apenas em um contexto político diferente no governo norte-americano.

Após a mais recente rodada de sobretaxas anunciadas por Washington, o governo brasileiro voltou a defender o uso da chamada Lei da Reciprocidade. A legislação autoriza o Brasil a adotar medidas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais unilaterais aos produtos nacionais.

Apesar disso, os ex-embaixadores consultados demonstram preocupação com uma eventual retaliação. Na avaliação deles, responder às tarifas com novas sobretaxas pode ampliar ainda mais o conflito comercial e provocar impactos negativos sobre setores da economia brasileira.

Integrantes do governo, por outro lado, afirmam que qualquer decisão será tomada com cautela e somente após diálogo com representantes do setor produtivo. Segundo interlocutores envolvidos nas negociações, o objetivo é encontrar uma resposta que preserve os interesses da indústria nacional, ao mesmo tempo em que demonstre reação às medidas adotadas pelos Estados Unidos.

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