Lula entra em nova especulação

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de não comparecer à posse do novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, ganhou força nos bastidores do Palácio do Planalto e do Itamaraty. Segundo apuração da colunista Janaína Figueiredo, do UOL, a tendência é que o chefe do Executivo brasileiro não viaje a Bogotá em 7 de agosto para a cerimônia que marcará o início do mandato do político de extrema direita. A avaliação dentro do governo é de que a presença de Lula no evento, neste momento, pode gerar mais desgaste político do que ganhos diplomáticos, especialmente em um cenário pré-eleitoral e de crescente polarização na América do Sul.
O tema não é novo dentro do governo. Em março deste ano, Lula já havia enfrentado dilema semelhante ao decidir não participar da posse do presidente chileno José Antonio Kast, também identificado com a direita radical. Na ocasião, houve um debate interno sobre a conveniência da viagem. O Itamaraty defendia a presença do petista, sob o argumento de que o gesto ajudaria a sinalizar disposição do Brasil em manter uma relação institucional e cordial com o novo governo chileno, independentemente das divergências ideológicas. No entanto, prevaleceu a ala do Planalto que considerou mais prudente preservar a imagem política de Lula e evitar associações com lideranças conservadoras em ascensão na região.
Agora, a discussão se repete com a eleição de Abelardo de la Espriella na Colômbia. Embora a confirmação oficial ainda dependa do Conselho Nacional Eleitoral colombiano, o resultado já é tratado como definido tanto por aliados quanto por adversários do novo presidente. Segundo fontes diplomáticas ouvidas pela coluna, a tendência no governo brasileiro é novamente optar pela ausência de Lula, a menos que haja um gesto político de aproximação por parte do colombiano. A leitura é a de que, como Lula já está no exercício do cargo e não precisa se afirmar institucionalmente, caberia ao novo mandatário sinalizar interesse em uma relação construtiva com o Brasil. Se esse gesto vier, o Planalto admite reavaliar a decisão.
A posição brasileira, no entanto, não significa rompimento nem disposição para isolamento diplomático. O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou nesta segunda-feira que o Brasil pretende manter uma relação “pragmática” com o futuro governo colombiano. Esse pragmatismo, porém, teria limites bem definidos. A ideia é preservar o diálogo institucional, defender os interesses brasileiros e manter a interlocução com Bogotá, mas sem transformar Lula em fiador político de um governo identificado com a extrema direita continental. Caso a ausência do presidente se confirme, o Brasil deverá ser representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que já esteve nas posses de Kast, no Chile, e de Javier Milei, na Argentina.
Nos bastidores do governo, um dos elementos que mais pesam na decisão é a vinculação política entre Abelardo de la Espriella e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República. O novo presidente colombiano já manifestou apoio ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, e a expectativa é que Flávio esteja presente na cerimônia de posse em Bogotá. Para integrantes do Planalto, a presença simultânea de Lula e de um de seus principais adversários no evento criaria um cenário politicamente desconfortável, com risco de exploração eleitoral por parte da oposição. Em outras palavras: ninguém em Brasília quer entregar de bandeja uma foto ou uma cena que possa virar peça de campanha do outro lado.
Ainda assim, dentro da diplomacia brasileira há quem veja a possível ausência de Lula como uma decisão de custo político e estratégico. Na avaliação de parte das fontes consultadas pela colunista, a ida do presidente brasileiro poderia ajudar a limitar o espaço de influência de Flávio Bolsonaro na aproximação com o novo governo colombiano. Sem Lula em Bogotá, argumentam, o campo fica mais livre para que o senador tente ocupar simbolicamente o posto de principal interlocutor brasileiro com a nova direita latino-americana. Mesmo assim, até aqui, a linha predominante no Planalto tem sido a de blindar o presidente de situações que possam gerar desgaste em plena preparação para a disputa eleitoral de 2026.
O pano de fundo dessa discussão é o avanço de lideranças conservadoras e de extrema direita em países da região, fenômeno que já vinha sendo monitorado com preocupação pelo governo brasileiro. A vitória de de la Espriella na Colômbia é vista como mais um capítulo dessa guinada política sul-americana, que também já se refletiu em vitórias como as de Milei, na Argentina, e Kast, no Chile. Para o governo Lula, o desafio agora é equilibrar pragmatismo diplomático e cálculo político interno: manter canais abertos com governos ideologicamente adversários sem oferecer munição à oposição brasileira. A decisão sobre a posse em Bogotá, portanto, vai muito além do protocolo. Ela se tornou mais um teste de como o Planalto pretende se mover diante de uma América do Sul cada vez mais tensionada entre interesses de Estado, disputa eleitoral e guerra de narrativas.



