Flávio Bolsonaro confessa ter mentido sobre relação com Vorcaro

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro admitiu nesta quinta-feira (14) que omitiu publicamente sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e justificou a contradição alegando a existência de um contrato de confidencialidade ligado ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Durante entrevista ao programa Mais, da GloboNews, Flávio afirmou que só passou a falar abertamente sobre o assunto após o vazamento de mensagens e áudios envolvendo ele e Vorcaro. Segundo o senador, havia uma obrigação contratual de manter sigilo sobre investidores do projeto audiovisual.
“Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade. Estou falando disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”, declarou inicialmente.
Pressionado pelos jornalistas sobre entrevistas anteriores nas quais afirmou nunca ter tido contato com Vorcaro — nem ele, nem integrantes da família Bolsonaro — Flávio acabou reconhecendo explicitamente que mentiu ao público.
“Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual? Isso gera multa, isso gera exposição dos investidores”, afirmou.
A declaração representa uma guinada importante na narrativa adotada até então pelo senador. Em março deste ano, quando vieram à tona informações de que seu número constava na agenda pessoal de Vorcaro, Flávio havia negado qualquer vínculo com o empresário. Na ocasião, argumentou que seu telefone era público e poderia estar salvo no celular de qualquer pessoa.
Agora, diante da divulgação de novos materiais, incluindo mensagens, áudios e registros de cobranças financeiras, o parlamentar passou a admitir a interlocução, mas insiste que a relação era exclusivamente profissional.
Segundo Flávio, Daniel Vorcaro foi procurado como potencial investidor privado para financiar Dark Horse, produção internacional que narra a trajetória política de Jair Bolsonaro. O senador afirma que não havia relação pessoal ou amizade entre ambos fora desse contexto.
“Se eu dissesse que conhecia o Vorcaro, a próxima pergunta seria qual era minha relação com ele. E eu teria que falar do filme. Foi só por isso que eu me eximi”, justificou.
Ao longo da entrevista, jornalistas questionaram detalhes sobre o suposto contrato de confidencialidade: quem assinou o documento, quem exigiu a cláusula de sigilo e se o senador estaria disposto a divulgar o conteúdo integral para esclarecer a situação.
Flávio, no entanto, evitou responder diretamente a esses pontos. Segundo ele, qualquer divulgação dependeria da autorização dos investidores e do gestor do fundo responsável pelas operações financeiras.
“Tem que falar com o investidor, com o gestor do fundo, para saber se é possível que isso aconteça. É uma relação jurídica nos Estados Unidos”, afirmou.
O senador também alegou que outros empresários envolvidos no financiamento do filme exigiram anonimato por receio de exposição pública ou repercussões políticas.
“É óbvio que empresários que investem dinheiro privado em um filme desses vão querer sigilo. Os outros investidores também não querem aparecer. Todos têm contrato de confidencialidade porque têm medo”, disse.
Outro ponto levantado por Flávio foi a acusação de que Daniel Vorcaro teria deixado de cumprir integralmente o acordo firmado para financiar o projeto. Segundo ele, o banqueiro interrompeu repasses previstos em contrato, o que teria gerado tensão na equipe responsável pela produção.
“Ele parou de honrar o contrato que tinha conosco. Graças a Deus o filme foi concluído e está nos retoques finais graças a outros investidores”, afirmou.
A crise ganhou força após o site Intercept Brasil divulgar mensagens e áudios em que Flávio cobra pagamentos atrasados e demonstra preocupação com o andamento do longa. Em um dos trechos, ele afirma estar “sem graça” de cobrar Vorcaro, mas ressalta a pressão interna causada pelos atrasos financeiros.
Além disso, reportagens apontam que Vorcaro teria desembolsado cerca de R$ 61 milhões para financiar o projeto, em operações realizadas entre fevereiro e maio de 2025.
O caso também abriu novas frentes de questionamento político e jurídico, já que investigadores apuram o caminho dos recursos e eventual ligação com fundos sob investigação.
Para Flávio, porém, o episódio é tratado como um problema de interpretação e exposição indevida de uma relação comercial que, segundo ele, sempre esteve limitada ao filme.
A justificativa de “menti por cláusula contratual” virou rapidamente combustível para críticas nas redes sociais e no meio político. Afinal, admitir publicamente uma mentira para explicar outra costuma ser uma estratégia arriscada — uma espécie de boneca russa da crise: você abre uma contradição e encontra outra dentro.
Agora, a pressão recai sobre a eventual apresentação do contrato citado pelo senador e sobre os próximos desdobramentos das investigações envolvendo Vorcaro, o financiamento do filme e os repasses milionários associados ao projeto.



