Lula opera com toda a sua força para isolar Flávio Bolsonaro

Entre os mais próximos do presidente Lula, há uma regra clara: ninguém comemora vitória antes da hora. O próprio Lula faz questão de repetir isso a quem se deixa levar pelo entusiasmo. “Eleição não se ganha de véspera. Só no último minuto. Até lá, tudo pode acontecer.” A frase, dita com a autoridade de quem já viveu de tudo um pouco na política, resume bem o jeito cauteloso com que ele encara o cenário de outubro.
Essa postura não surgiu do nada. Vem da experiência amarga de 1989, a primeira eleição presidencial pelo voto direto após o fim da ditadura. Naquele ano, o país tinha 21 candidatos, e Lula chegou ao segundo turno por uma margem mínima. Venceu Leonel Brizola por apenas 0,6% dos votos válidos, uma diferença quase imperceptível. No segundo turno, cresceu, empatou com Fernando Collor nas pesquisas e surpreendeu no primeiro debate na televisão. Mas perdeu fôlego no seguinte. O resultado final foi duro: 53,03% para Collor, 46,97% para Lula.
O tempo passou, mas as lições ficaram. Em 1994, Lula liderava todas as pesquisas no início do ano. Ainda assim, foi derrotado no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso, impulsionado pelo sucesso do Plano Real, que havia controlado a inflação. Quatro anos depois, em 1998, FHC se reelegeu também no primeiro turno. Lula, abatido, chegou a dizer a pessoas próximas que talvez nunca mais disputasse a Presidência.
A história, no entanto, tomou outro rumo. Em 2002, Lula venceu pela primeira vez. Em 2006, foi reeleito. Em 2010, deixou o governo com aprovação em torno de 80% e conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff. Quatro anos depois, ajudou na reeleição dela. Parecia um ciclo consolidado, até que vieram os anos mais difíceis.
Em 2018, Lula estava pronto para voltar à disputa, mas acabou condenado e preso, acusado de corrupção. Fora da corrida, viu Jair Bolsonaro vencer. A reviravolta veio depois, quando suas condenações foram suspensas pela Justiça. Em 2022, Lula voltou às urnas e venceu Bolsonaro por uma margem apertada: 50,90% contra 49,10%. Uma vitória dramática, decidida voto a voto.
Agora, o cenário é outro. Bolsonaro não está no páreo, após ser condenado a 27 anos e três meses de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe e à ruptura democrática. Em seu lugar, surge o filho Flávio, apontado pelo próprio pai como herdeiro político. Ainda é cedo para saber o tamanho real desse capital eleitoral.
No tabuleiro partidário, Lula trabalha com cuidado. Há a possibilidade de um nome do PSD, comandado por Gilberto Kassab, mas nada está definido. Ratinho Júnior, governador do Paraná, é citado como opção, embora evite se lançar enquanto o ex-juiz Sérgio Moro continuar no caminho. Lula, por sua vez, tenta atrair o PSD, mesmo diante das negativas públicas de Kassab. Também busca ampliar o apoio no MDB, onde já conta com aliados importantes, e avançar na divisão do Centrão, especialmente PP e União Brasil.
Com tantas variáveis em jogo, o presidente mantém os pés no chão. Para quem conhece sua trajetória, a cautela não é pessimismo. É método. Afinal, como ele mesmo ensina, eleição só se decide no fim.



