“Lulinha não é mais paz e amor”, diz Lula na Bahia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um discurso carregado de emoção e determinação, sinalizou uma guinada na sua postura política ao declarar que a eleição de 2026 será uma verdadeira guerra. Pronunciada durante as comemorações dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores em Salvador, a fala ecoou como um chamado às armas para a militância petista, rompendo com a imagem tradicional de um líder conciliador. Lula, que sempre se apresentou como o artífice da “paz e amor” na política brasileira, agora parece pronto para enfrentar o que descreve como uma ofensiva implacável de fake news e desinformação nas redes sociais.
A frase “Não tem mais Lulinha paz e amor” resume uma transformação pessoal e estratégica. Ao longo de sua carreira, Lula cultivou um carisma acessível, apelidado carinhosamente de “Lulinha”, que o ajudou a conectar-se com as massas e a desarmar opositores com humor e empatia. No entanto, o contexto atual, marcado por polarizações extremas e ataques sistemáticos à sua gestão, impõe uma resposta mais agressiva. Lula criticou a passividade anterior, afirmando que o adversário é “desaforado” e que não há mais espaço para silêncios complacentes diante das mentiras que circulam online.
Essa declaração reflete o amadurecimento de uma campanha eleitoral em um ambiente digital hostil, onde a desinformação se alastra mais rápido que qualquer narrativa oficial. Lula enfatizou a necessidade de preparar o terreno para uma “guerra política”, não no sentido literal, mas como uma batalha pela verdade e pela mobilização. Seus apoiadores veem nisso um sinal de vitalidade, um líder que, aos 80 anos, recusa-se a ser intimidado por narrativas fabricadas. É uma admissão de que a era da diplomacia sutil deu lugar a confrontos diretos, especialmente contra forças que exploram o ódio para minar instituições democráticas.
A mudança de tom também expõe as fraturas profundas na sociedade brasileira. Desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, passando pela prisão de Lula e o governo Bolsonaro, o país vive um ciclo de revanchismos que transforma eleições em arenas de vingança. Lula, que retornou ao poder em 2023 com uma vitória apertada, sabe que 2026 não será uma reeleição simples, mas um teste de sobrevivência para o progressismo. Sua fala em Salvador, perante uma multidão fiel, serve como um lembrete de que a paciência tem limites, e que a defesa da democracia exige unhas e dentes.
Do lado oposicionista, a reação foi imediata e previsível: acusações de radicalismo e de incitação à violência. Críticos argumentam que equiparar eleições a uma “guerra” só alimenta o ciclo de ódio que Lula tanto condenou em discursos anteriores. No entanto, defensores contrapõem que é precisamente essa hipocrisia do outro lado – que usa termos bélicos sem pudor – que justifica a resposta. O debate reacende a questão central: em um tempo de pós-verdades, onde a moderação é vista como fraqueza, quem define os limites da retórica política?
Olhando adiante, essa postura pode redefinir a estratégia do PT para as eleições municipais de 2024 e a presidencial de 2026. Lula parece apostar em uma militância mais combativa, capaz de contra-atacar nas redes e nas ruas, transformando vítimas em guerreiros. Isso envolve não só combater fake news com fatos, mas também reconectar com bases que se sentem traídas pela lentidão das reformas prometidas. Se bem executada, essa “guerra” poderia consolidar o legado lulista; se mal gerida, arrisca aprofundar a divisão nacional.
Em última análise, as palavras de Lula em Salvador não são apenas um desabafo, mas um manifesto para uma era de resistência. Elas nos convidam a refletir sobre o preço da democracia em tempos turbulentos: o “paz e amor” de outrora era um luxo de estabilidade, agora substituído pela urgência da luta. Seja aplaudida ou criticada, essa declaração humaniza um líder icônico, mostrando que, mesmo aos 80, Lula não se rende ao cansaço da idade ou à ilusão da tranquilidade. A eleição de 2026, assim anunciada, promete ser o capítulo mais intenso de uma saga que ainda define o destino do Brasil.



