TSE suspende divulgação de pesquisa que mostrava Flávio Bolsonaro à frente de Lula

A suspensão de uma pesquisa eleitoral pelo Tribunal Superior Eleitoral voltou a colocar o tema da responsabilidade na divulgação de dados políticos no centro do debate público. Na última sexta-feira, dia 30, a presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, determinou a interrupção imediata da circulação de um levantamento que apontava vantagem do senador Flávio Bolsonaro sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno das eleições presidenciais.
A pesquisa havia sido divulgada poucos dias antes, na terça-feira, dia 27, pela consultoria mexicana Áltica Research. O material ganhou força rapidamente nas redes sociais e em aplicativos de mensagens, justamente por apresentar números apertados e um cenário eleitoral que foge do que costuma aparecer em levantamentos mais conhecidos do público brasileiro. Segundo os dados divulgados, Flávio Bolsonaro aparecia com 48% das intenções de voto, enquanto Lula somava 46%, diferença dentro da margem de erro estimada em 2,83%.
O problema, no entanto, não estava nos números em si, mas no caminho percorrido até eles chegarem ao público. De acordo com a decisão do TSE, a pesquisa não havia sido registrada previamente no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais, o PesqEle, como exige a legislação. Esse registro é obrigatório para qualquer levantamento que trate de intenção de voto ou avaliação de governo em ano eleitoral, e deve ser feito com pelo menos cinco dias de antecedência à divulgação.
A representação que motivou a decisão partiu do deputado federal Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro, apresentada durante o recesso forense. O parlamentar argumentou que a empresa divulgou percentuais, comparações entre cenários e projeções eleitorais em plataformas digitais de grande alcance, sem cumprir as regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. Para ele, a ausência de registro compromete a transparência e dificulta a fiscalização sobre metodologia, financiamento e amostragem.
Segundo a própria Áltica Research, o estudo foi realizado entre os dias 23 e 25 de janeiro, com 1.200 entrevistados maiores de 18 anos, distribuídos por todas as regiões do país. A empresa informou que utilizou um painel web recrutado por meio de river sampling, técnica comum em pesquisas online, com ajustes posteriores para aproximar a amostra da composição da população brasileira. No site institucional, a consultoria afirmou ainda que o levantamento foi financiado de forma independente e integra o projeto “Painel Opiniões Públicas América Latina 2026”.
Ao analisar o caso, a ministra Cármen Lúcia destacou que a circulação de pesquisas não registradas, especialmente em ambiente digital, representa um risco concreto à formação da opinião pública. Em um cenário de redes sociais rápidas e debates acalorados, números sem a devida checagem institucional podem ganhar contornos de verdade absoluta, mesmo quando carecem de informações básicas exigidas por lei.
Após a decisão liminar, a Áltica Research retirou a pesquisa de suas redes sociais e canais oficiais. O episódio serve como alerta tanto para empresas de pesquisa quanto para o público em geral. Em períodos eleitorais, dados e percentuais têm peso político real, influenciam narrativas e moldam percepções. Por isso, regras como o registro prévio não são mera burocracia, mas um mecanismo de proteção à transparência e ao equilíbrio do processo democrático.
Em meio a um ano que promete disputas intensas e discussões acaloradas, o recado do TSE é claro: informação eleitoral precisa circular, mas dentro das regras. É esse cuidado que ajuda a separar análise séria de ruído, e garante que o debate público se apoie em bases minimamente confiáveis.



