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Tarifas anunciadas por Trump já impactam setores da economia brasileira

O assessor especial da Presidência da República e ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que o Brasil e outras nações podem ter subestimado os impactos das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o comércio internacional. A declaração foi feita durante entrevista ao UOL News – 2ª edição, na qual o diplomata avaliou os efeitos do chamado “tarifaço” e seus reflexos na economia global e no sistema multilateral.

Segundo Amorim, as medidas adotadas por Trump não se limitaram a disputas pontuais, mas promoveram uma mudança estrutural na forma como as grandes potências passaram a lidar com o comércio internacional. Ao impor tarifas elevadas sobre produtos estratégicos, como aço e alumínio, os Estados Unidos afetaram diretamente cadeias produtivas globais e ampliaram o nível de incerteza nas relações comerciais entre países.

Na avaliação do diplomata, houve uma percepção inicial equivocada de que as tarifas seriam temporárias ou utilizadas apenas como instrumento de pressão política. “Talvez tenhamos subestimado”, afirmou Amorim, ao reconhecer que o alcance das medidas acabou sendo maior do que o previsto. Para ele, a postura americana ajudou a enfraquecer regras que sustentavam o comércio internacional nas últimas décadas.

O ex-chanceler destacou que o impacto para o Brasil foi significativo, especialmente em setores industriais que dependem da exportação para o mercado norte-americano. A imposição de barreiras reduziu a competitividade de produtos brasileiros e dificultou o planejamento de empresas que operam com contratos de médio e longo prazo. Amorim ressaltou que, além das perdas diretas, o ambiente de instabilidade afasta investimentos e compromete decisões estratégicas.

Outro ponto central da análise foi o enfraquecimento do multilateralismo. Segundo Amorim, o tarifaço contribuiu para o esvaziamento de instituições internacionais que historicamente mediaram conflitos comerciais. Ele citou a Organização Mundial do Comércio (OMC) como um dos organismos mais impactados, diante da dificuldade de impor ou fazer cumprir decisões frente às ações unilaterais de grandes economias.

O assessor da Presidência afirmou que o movimento liderado por Trump acabou incentivando outros países a adotarem medidas semelhantes, criando um efeito dominó no sistema global. Para Amorim, isso representa uma ruptura com décadas de construção de consensos baseados em regras comuns, substituídas por decisões nacionais baseadas em interesses imediatos e negociações bilaterais mais duras.

Durante a entrevista, Amorim também chamou atenção para o cenário geopolítico mais amplo. Ele avalia que o comércio passou a ser utilizado como instrumento de pressão política em disputas estratégicas, o que amplia tensões e dificulta soluções diplomáticas. Nesse contexto, países emergentes, como o Brasil, tendem a ser mais vulneráveis, pois possuem menor margem de manobra frente às grandes potências.

Por fim, o diplomata defendeu que o Brasil reforce sua atuação diplomática e diversifique parcerias comerciais para reduzir a dependência de mercados específicos. Amorim afirmou que o momento exige cautela, estratégia e fortalecimento de alianças internacionais. Para ele, compreender os efeitos do tarifaço é fundamental para evitar novos equívocos e preparar o país para um cenário global cada vez mais marcado por disputas econômicas e incertezas institucionais.

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