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Ex-embaixador dos EUA revela o porquê Trump abandonou Bolsonaro

A relação entre Brasil e Estados Unidos voltou ao centro do debate internacional após declarações do diplomata norte-americano John Feeley à BBC News Brasil. Em entrevista recente, Feeley analisou a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diante do cenário político brasileiro, especialmente após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo ele, a mudança de comportamento foi rápida e direta, revelando muito sobre a forma como Trump enxerga aliados estrangeiros.

De acordo com o diplomata, Bolsonaro deixou de ser relevante para Trump assim que perdeu as eleições de 2022 e, posteriormente, foi condenado e preso. “Assim que Bolsonaro perdeu, ou seja, assim que foi condenado e preso, Donald Trump o viu como um perdedor. E se há algo que Donald Trump não tolera, são perdedores”, afirmou Feeley. Para ele, essa percepção explica o distanciamento quase imediato entre os dois líderes, que antes demonstravam afinidade pública.

Feeley também minimizou a ideia de que Trump tivesse um interesse real ou profundo pelo Brasil. Segundo o diplomata, a relação sempre foi mais circunstancial do que estratégica. “Não acho que Donald Trump saiba muito sobre Bolsonaro. Posso quase garantir que ele não acorda todos os dias pensando no Brasil”, declarou. Na visão dele, o país nunca ocupou um lugar central nas prioridades do então presidente americano.

Com o fim do governo Bolsonaro, o afastamento entre os dois países teria ocorrido de forma automática. Feeley avaliou que, no momento em que o ex-presidente deixou de ser uma referência política e as instituições democráticas brasileiras seguiram seu curso, Trump simplesmente perdeu o interesse. “Assim que o Estado de Direito e a justiça democrática prevaleceram no Brasil, Donald Trump o descartou”, resumiu.

As tensões entre Brasil e Estados Unidos, no entanto, não ficaram apenas no campo das declarações. Em julho deste ano, o governo americano anunciou tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros, além da inclusão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e de sua esposa na lista de sanções da Lei Magnitsky. As medidas ocorreram em meio ao julgamento de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e geraram forte repercussão política e econômica.

Essas sanções acabaram sendo suspensas em novembro, também por decisão de Trump, o que levou alguns analistas a apontarem uma vitória diplomática do governo brasileiro. Para John Feeley, no entanto, essa leitura precisa ser feita com cautela. Ele descreve Trump como um negociador difícil, não por estratégia refinada, mas por imprevisibilidade. “Donald Trump é um presidente muito, muito imprevisível, assistemático e economicamente ignorante”, afirmou.

Na avaliação do diplomata, o desfecho favorável ao Brasil não deve ser interpretado como resultado de uma negociação exemplar. Segundo ele, fatores externos e o próprio estilo errático de Trump tiveram peso decisivo. “Acho que Lula, francamente, teve sorte”, comentou, ao se referir aos elogios feitos por parte da imprensa internacional à condução do governo brasileiro nesse episódio.

As declarações de John Feeley ajudam a lançar luz sobre os bastidores da política internacional e mostram como relações entre países podem ser influenciadas mais por interesses momentâneos do que por alianças duradouras. No caso do Brasil, o episódio reforça a importância de uma diplomacia consistente, menos dependente de afinidades pessoais e mais focada em instituições, diálogo e previsibilidade.

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