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Abalado diante de grande perda, Lula está de luto e se manifesta

O Brasil se despede, com respeito e comoção, de uma das figuras mais simbólicas da espiritualidade e da cultura afro-brasileira. A morte de Carmen Oliveira da Silva, conhecida como Mãe Carmen de Oxaguian, na última sexta-feira (26/12), provocou uma onda de homenagens e reflexões sobre o legado deixado por quem dedicou quase um século à preservação de saberes ancestrais. A notícia foi confirmada após dias de internação no Hospital Português, em Salvador, onde ela tratava complicações decorrentes de uma forte gripe.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se manifestou publicamente, destacando a importância histórica de Mãe Carmen para o Brasil. Em sua homenagem, Lula afirmou que a ialorixá manteve acesa a “chama da espiritualidade africana”, ressaltando o papel fundamental que ela exerceu na formação cultural e na identidade do país. A mensagem repercutiu amplamente e foi compartilhada por lideranças religiosas, artistas e admiradores de sua trajetória.

Mãe Carmen carregava em sua própria história a memória viva do Candomblé no Brasil. Filha mais nova de Mãe Menininha do Gantois, uma das maiores referências da religião no século XX, ela cresceu cercada por ensinamentos que atravessaram gerações. Mãe Menininha projetou o Terreiro do Gantois internacionalmente, tornando-se conselheira de intelectuais, músicos, escritores e artistas que buscavam compreender melhor a cultura afro-brasileira. Essa herança, longe de ser apenas simbólica, moldou profundamente o caminho de Carmen.

Iniciada aos 7 anos para o orixá Oxaguian, representação jovem de Oxalá, Mãe Carmen viveu uma infância e juventude profundamente ligadas aos rituais, valores e responsabilidades do terreiro. Ao longo do tempo, sua dedicação silenciosa e constante fez com que se tornasse uma referência natural dentro da casa. Não era uma liderança baseada em discursos longos, mas em presença, escuta e coerência com os fundamentos da tradição.

Após a morte de sua irmã, Mãe Cleusa, Mãe Carmen assumiu o comando do Terreiro do Gantois. Sob sua condução, o espaço manteve-se firme como um ponto de resistência cultural e acolhimento espiritual, respeitando os ritos ancestrais e, ao mesmo tempo, dialogando com a sociedade contemporânea. Em tempos de intolerância e desinformação, sua postura serena ajudou a fortalecer o respeito às religiões de matriz africana.

A partida de Mãe Carmen ocorreu às vésperas de seu 99º aniversário, que seria celebrado no dia 29 de dezembro. Para muitos, esse detalhe reforça o simbolismo de um ciclo que se encerra. Ela era vista como uma guardiã da sabedoria ancestral, reconhecida pelo equilíbrio, pela calma no falar e pelo rigor na preservação dos preceitos do Gantois.

Fundado em 1849, o Terreiro do Gantois é reconhecido como patrimônio histórico e cultural do Brasil. A sucessão de uma ialorixá, conforme determina a tradição, é um processo sagrado, guiado pelos oráculos e pelo tempo espiritual necessário. Não há pressa, apenas respeito aos rituais e à história da casa.

Enquanto o futuro da liderança religiosa segue sendo aguardado, Salvador vive dias de despedida. Autoridades, artistas e devotos prestam homenagens, deixam flores, mensagens e lembranças. Mãe Carmen de Oxaguian parte, mas seu legado permanece vivo, ecoando na fé, na cultura e na memória coletiva de um Brasil plural e profundamente marcado pela herança africana.
 

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