PL planeja forçar votação de anistia ao 8 de janeiro na Câmara mesmo sem aval de Hugo Motta

O Partido Liberal (PL), maior força da oposição no Congresso Nacional, está mobilizado para forçar a votação de um projeto de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023, mesmo sem o sinal verde do presidente da Câmara, Hugo Motta. A estratégia do partido, articulada nos bastidores, visa contornar a relutância do republicano paraibano, que tem adiado a pauta alegando falta de consenso. Com o apoio de bolsonaristas fiéis e aliados em outras siglas do Centrão, o PL aposta em manobras regimentais para incluir o tema na ordem do dia, transformando o que era uma promessa eleitoral em uma batalha imediata no plenário.
A proposta de anistia ganhou tração após a condenação de Jair Bolsonaro em primeira instância, o que reacendeu o debate sobre perdão aos manifestantes que invadiram as sedes dos Três Poderes. O texto em discussão, de autoria de deputados como Nikolas Ferreira (PL-MG), prevê a extinção de punições para participantes dos atos golpistas, argumentando que se tratou de uma “manifestação popular” contra supostas fraudes eleitorais. No entanto, críticos veem na iniciativa uma tentativa de blindagem política, especialmente em um momento em que o ex-presidente enfrenta múltiplas investigações e restrições judiciais.
Para driblar a resistência de Motta, o PL planeja explorar brechas no regimento interno da Casa. Uma das táticas envolve a apresentação de requerimentos de urgência assinados por uma maioria qualificada de deputados, o que obrigaria a liderança a pautar o projeto em sessões ordinárias. Outra possibilidade é a utilização de obstruções em votações paralelas, criando um clima de pressão para que o tema avance. Líderes plesistas, como o vice-presidente da Câmara Altineu Côrtes (PL-RJ), já sinalizaram que, na ausência ou recusa de Motta, assumirão a presidência de sessões para forçar a deliberação.
Hugo Motta, eleito com o aval de Arthur Lira e parte do apoio do PL, tem se posicionado com cautela, priorizando pautas econômicas e evitando confrontos diretos com o governo Lula. Seus aliados argumentam que a anistia ampla carece de fôlego político após as condenações recentes no STF, e que uma votação precipitada poderia azedar relações com o Planalto e o Judiciário. A demora do presidente da Casa é interpretada por alguns como descumprimento de um acordo informal feito durante a eleição da Mesa Diretora, no qual o PL teria cedido votos em troca de espaço para temas sensíveis à base bolsonarista.
A articulação do PL não passa despercebida e já provoca reações acaloradas no campo governista. O PT e aliados como o PSOL acusam a oposição de tentar “reviver o fantasma do golpe” em pleno 2025, quando o país busca estabilidade institucional. Líderes petistas preveem que, caso o projeto chegue ao plenário, mobilizarão obstruções e recursos judiciais para barrá-lo, inclusive recorrendo ao Supremo para questionar a constitucionalidade da anistia. Enquanto isso, o governo monitora o movimento de perto, sem se opor abertamente, mas deixando claro que não investirá capital político na defesa da pauta.
No contexto mais amplo da polarização brasileira, essa disputa pela anistia reflete as fissuras no Centrão, grupo que historicamente dita o ritmo do Congresso. O PL, fortalecido pelas eleições municipais de 2024, vê na pauta uma oportunidade de consolidar sua imagem como defensor dos “patriotas”, mas arrisca isolar-se se a manobra falhar. Analistas apontam que o sucesso dependerá da adesão de siglas como o PP e o Republicanos, que hesitam entre lealdade ao bolsonarismo e pragmatismo com o Executivo.
Por fim, o desfecho dessa ofensiva pode redefinir o equilíbrio de forças na Câmara para o restante do mandato. Se o PL conseguir pautar e aprovar a anistia, isso não só aliviaria pressões sobre Bolsonaro, mas também sinalizaria o retorno de uma agenda revisionista aos eventos de 2023. Caso contrário, a frustração interna pode rachar a oposição, enfraquecendo sua coesão para embates futuros, como a eleição presidencial de 2026. Em Brasília, onde alianças são fluidas, o episódio reforça que nada está decidido até o gavel bater no plenário.



