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Bolsonaro admite em audiência de custódia que sofreu “surto” ao danificar tornozeleira eletrônica

Em um desdobramento surpreendente no cenário político-judicial brasileiro, o ex-presidente Jair Bolsonaro participou, na tarde deste domingo, 23 de novembro de 2025, de uma audiência de custódia por videoconferência, após ter sido preso preventivamente na sexta-feira. A medida cautelar foi decretada em razão da suspeita de tentativa de fuga, evidenciada pela violação intencional do lacre da tornozeleira eletrônica com o uso de um ferro de solda. O episódio, que ganhou repercussão imediata, colocou novamente o ex-chefe do Executivo no centro de uma crise que mistura saúde, comportamento e responsabilidade penal.

Durante a audiência, conduzida pela juíza auxiliar do Supremo Tribunal Federal Luciana Yuki Fugishita Sorrentino, Bolsonaro apresentou uma explicação que chamou atenção pela singularidade: afirmou ter sofrido um “surto” decorrente do uso de medicamentos controlados, o que o teria levado a danificar o equipamento de monitoramento por mera curiosidade e sem qualquer planejamento. O ex-presidente foi enfático ao negar intenção de fuga, sustentando que agiu sozinho, sem auxílio externo, e que jamais pensou em deixar o país ou descumprir as medidas cautelares impostas anteriormente.

A defesa do ex-presidente reforçou a tese de que o ato teria sido impulsivo e desprovido de racionalidade, atribuindo-o a um quadro de saúde mental momentaneamente abalado. Argumentou ainda que Bolsonaro sempre se colocou à disposição da Justiça e que a prisão preventiva seria desproporcional, sobretudo diante da ausência de risco concreto de evasão. Solicitou, por isso, a imediata revogação da medida ou, ao menos, a substituição por outras restrições menos gravosas.

A magistrada, ao homologar a prisão preventiva, considerou que a conduta de violação dolosa do monitoramento eletrônico configurava indício suficiente de tentativa de burla ao sistema judicial, justificando a manutenção da custódia como forma de garantir a aplicação da lei penal e a ordem pública. Bolsonaro permanece detido nas dependências da Superintendência da Polícia Federal em Brasília, em cela separada e com acompanhamento médico constante, conforme determinado.

A decisão final sobre a continuidade ou não da prisão caberá à Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, que analisará o caso em sessão marcada para esta segunda-feira, 24 de novembro. Ministros como Alexandre de Moraes (relator), Cristiano Zanin e Luiz Fux compõem o colegiado que terá a palavra derradeira sobre a liberdade do ex-presidente neste momento processual.

O episódio expõe, mais uma vez, a polarização extrema que ainda envolve a figura de Jair Bolsonaro. De um lado, aliados classificam a prisão como perseguição política e excesso judicial; de outro, críticos apontam o ato de danificar a tornozeleira como demonstração de desprezo às instituições e tentativa clara de obstrução da justiça. Independentemente da interpretação, o caso reforça o caráter inédito do processo de responsabilização de um ex-presidente da República no Brasil.

Enquanto o país aguarda o julgamento definitivo da Primeira Turma, o Brasil assiste a mais um capítulo de uma saga judicial que parece longe do fim. A alegação de surto, a negação de intenção de fuga e a manutenção da prisão preventiva desenham um cenário de alta tensão institucional, cujas consequências políticas e jurídicas ainda são difíceis de mensurar por completo.

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