Tarifaço revogado: Lula ganha fôlego e bolsonarismo enfrenta nova derrota

O recuo norte-americano nas tarifas impostas a produtos brasileiros, anunciado na noite de 20 de novembro de 2025, pegou de surpresa quem ainda acreditava que Donald Trump cumpriria a ameaça de punir o Brasil por causa da condenação de Jair Bolsonaro. A chamada “Bolsotaxa”, que chegou a prever 50% de sobretaxa sobre aço, soja e outros itens, evaporou-se em menos de quatro meses. O que era para ser um trunfo externo do bolsonarismo transformou-se num dos maiores constrangimentos recentes da direita brasileira.
A vitória diplomática caiu no colo do governo Lula como um presente que ele nem precisou embrulhar. Bastou manter a postura firme do Supremo Tribunal Federal, não ceder à chantagem externa e deixar que a máquina estatal – Itamaraty, Ministério da Agricultura, Apex – trabalhasse em silêncio. Quando o Departamento de Comércio dos EUA divulgou a revogação das tarifas agrícolas, o Planalto já tinha pronto o discurso: soberania nacional respeitada, economia protegida e imagem de país sério recuperada.
Enquanto isso, o bolsonarismo assistia à cena sem saber exatamente o que comemorar ou lamentar. Parte dos apoiadores mais radicais celebrou o recuo como prova de que “Trump ainda ama o Brasil”, ignorando que a medida beneficiava justamente o governo que eles combatem. Outra parte tentou culpar a inflação americana ou até “lobbies do agronegócio globalista”, mas a narrativa não colou. Pela primeira vez em muito tempo, a oposição ficou sem discurso coerente diante de uma boa notícia econômica.
O timing não poderia ser pior para a família Bolsonaro. Horas depois do anúncio americano, o STF aceitou denúncia contra Eduardo Bolsonaro por suposta articulação para que os Estados Unidos punissem o Brasil. A ironia foi cruel: o deputado que viajava a Washington pedindo sanções viu o próprio trunfo virar prova de crime. A imprensa que costumava tratar suas viagens como “diplomacia paralela” agora as expõe como tentativa de sabotagem nacional.
Lula, mestre em surfar ondas políticas, não perdeu a oportunidade. Em pronunciamento rápido, agradeceu aos produtores rurais – muitos deles eleitores históricos da direita – e disse que o Brasil “não se curva a ameaças de ninguém”. O gesto foi calculado: roubar o discurso nacionalista que o bolsonarismo achava exclusivo e recolocar o governo no centro da defesa da pátria. Pesquisas internas já captam o movimento: a aprovação do presidente sobe especialmente entre trabalhadores rurais e pequenos exportadores do Centro-Oeste.
A extrema-direita agora enfrenta um vazio estratégico que não aparecia tão claro desde 2022. Sem o apoio irrestrito de Trump, sem narrativa victimista convincente e com lideranças enredadas em processos criminais, o movimento perde musculatura para 2026. O que resta é um discurso cada vez mais raivoso nas redes, mas que não consegue mais mobilizar além do núcleo duro ideológico.
No fim das contas, o episódio das tarifas revela uma mudança de fase na política brasileira. O governo Lula, mesmo com todos os seus problemas internos, consegue projetar estabilidade institucional e capacidade de negociação internacional. Já o bolsonarismo, outrora dono da agenda, vê-se reduzido a reagir a derrotas que ele mesmo ajudou a construir. O recuo americano não foi apenas econômico; foi, acima de tudo, um recado político de que o tempo da interferência externa em nome de Bolsonaro acabou.



