Após ter prisão decretada por Moraes, Ramagem fugiu do Brasil clandestinamente

Nos últimos meses, um dos assuntos mais comentados nos bastidores de Brasília tem sido a situação envolvendo o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos de prisão por participação na tentativa de ruptura institucional investigada desde 2023, o parlamentar deixou o Brasil em setembro — justamente no período em que a 1ª Turma da Corte julgava um dos trechos mais sensíveis do caso.
Segundo apurações divulgadas pela TV Globo, Ramagem teria embarcado para Boa Vista (RR) e, de lá, seguido por terra rumo à fronteira norte. A viagem, descrita como discreta, teria sido feita em um carro alugado. A Polícia Federal trabalha com duas possibilidades de rota: a passagem pela Venezuela ou pela Guiana, ambos países acessíveis por via terrestre a partir de Roraima. A investigação ainda tenta esclarecer detalhes do deslocamento e confirmar quem teria auxiliado no trajeto.
A movimentação ganhou novos contornos nesta quarta-feira (19), quando o PSOL protocolou pedidos no STF e na própria Polícia Federal solicitando a prisão de Ramagem. Porém, conforme apuração da TV Globo, a medida preventiva já havia sido determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, em decisão sigilosa. Ou seja, havia ordem judicial para que o deputado fosse detido, caso estivesse em território nacional.
A condenação imposta pela 1ª Turma do STF inclui os crimes de organização criminosa, atentado ao Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe. Na leitura dos ministros, Ramagem utilizou a estrutura da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que dirigiu durante o governo Bolsonaro, para monitorar adversários políticos, além de participar de ações destinadas a desacreditar o sistema eleitoral. A decisão também estabeleceu restrições claras: ele não poderia deixar o Brasil e deveria entregar seu passaporte.
A defesa de Ramagem apresentou recursos, mas o primeiro embargo já foi rejeitado. Agora, o processo segue para a conclusão da fase recursal. Quando essa etapa terminar, a pena pode começar a ser executada.
Enquanto isso, outro episódio chamou atenção no Congresso. Um documento oficial, encaminhado à Câmara dos Deputados, revela que Ramagem solicitou na terça-feira (18) um aparelho celular com roaming internacional. O objetivo seria participar, remotamente, da votação do chamado Projeto Antifacção, uma das pautas mais acompanhadas da semana. Só que há um detalhe importante: as regras internas da Casa não permitem que um parlamentar exerça o mandato a partir de outro país. Além disso, a Câmara informou que não autorizou viagem internacional em missão oficial e não recebeu aviso sobre saída do território nacional.
A situação ficou ainda mais complexa quando veio à tona que Ramagem havia apresentado atestados médicos por dois períodos consecutivos — de 9 de setembro a 8 de outubro e de 13 de outubro a 12 de dezembro. Durante esses intervalos, sua ausência seria justificada, mas não para deslocamentos ao exterior sem comunicação formal.
Questionada, a defesa do deputado adotou cautela. O advogado Paulo Cintra afirmou que a equipe só foi informada da decisão de Ramagem de deixar o país nesta semana e que, por ora, não haverá manifestação detalhada sobre os desdobramentos do caso.
Embora o quadro jurídico ainda esteja em evolução, o episódio já entrou para a lista de acontecimentos marcantes da política recente. Em um momento em que o Brasil acompanha debates decisivos sobre segurança institucional e transparência pública, a saída do deputado do país adiciona mais um capítulo a uma história que ainda está longe de chegar ao fim.



