Após tentar interferir no processo do pai, STF forma maioria e Eduardo Bolsonaro recebe notícia

A manhã desta sexta-feira (14) ganhou contornos de novela política em Brasília — daquelas em que cada capítulo parece mais surreal que o anterior. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal formou maioria para transformar o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em réu. O motivo? A suspeita de interferência direta no julgamento que envolve seu próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado recentemente a 27 anos e três meses de prisão por liderar uma organização criminosa que tentou manter-se no poder após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.
A denúncia da Procuradoria-Geral da República é pesada: Eduardo, que desde março vive nos Estados Unidos afirmando sofrer “perseguição política”, teria trabalhado nos bastidores de Washington para pressionar autoridades brasileiras. Algo que, convenhamos, soa a enredo de filme político — mas, pelo visto, virou realidade por aqui.
Os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin votaram pela abertura do processo. Moraes, em seu voto, foi direto ao ponto: o deputado teria contribuído para a criação de um ambiente de intimidação ao articular sanções norte-americanas contra o Brasil. E não foram medidas simbólicas, não. As chamadas tarifas Magnitsky — normalmente usadas pelos EUA para punir ditadores e violadores de direitos humanos — foram aplicadas como resposta ao que o governo americano chamou de “perseguição” contra Bolsonaro.
Eduardo, em diversas entrevistas e postagens, deu a entender que participou das negociações com a Casa Branca. “Articulei com o governo americano”, disse em um dos vídeos publicados em suas redes. A fala, que inicialmente parecia bravata, agora é usada como elemento central contra ele. Para Moraes, a intenção do deputado seria clara: criar um clima de temor entre autoridades brasileiras, sobretudo as envolvidas no processo que condenou o pai.
Em outras palavras, o STF entende que houve tentativa de coação, só que praticada a partir de outro país — um movimento raro na política nacional, para dizer o mínimo. E para complicar ainda mais, Moraes citou em seu voto que o deputado buscava também influenciar possíveis discussões sobre uma eventual anistia aos envolvidos no episódio que ficou conhecido como tentativa de golpe.
O processo só avança de vez após o voto da ministra Cármen Lúcia, mas a tendência é que o julgamento seja aberto. Caso condenado, Eduardo Bolsonaro pode pegar de um a quatro anos de reclusão, além de multa. E isso é só a primeira ponta do problema.
Paralelamente, ele enfrenta outra dor de cabeça: o risco de perder o mandato por excesso de faltas na Câmara dos Deputados. Eduardo ultrapassou o limite permitido de ausências e agora será analisado pela Comissão de Ética, antes de uma votação em plenário. Ou seja, o deputado vive um momento político delicadíssimo — talvez o mais sensível de sua trajetória.
Enquanto isso, nos EUA, ele segue publicando fotos de encontros com integrantes do governo de Donald Trump, que retorna ao poder com um discurso mais duro e cheio de promessas de rever alianças internacionais. Para alguns, Eduardo tenta mostrar força e proximidade com Washington; para outros, apenas alimenta a narrativa que agora pode custar sua liberdade.
A novela continua — e promete novos capítulos.



