Caso Cassia Kis: denúncia tem novo desdobramento

Um novo capítulo se abriu na polêmica envolvendo a atriz Cássia Kis após um incidente ocorrido na última sexta-feira, 24 de abril, no banheiro feminino do Barra Shopping, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Roberta Santana, de 25 anos, atriz e auxiliar de restaurante que se identifica como mulher trans, relatou ter sido alvo de comentários discriminatórios enquanto aguardava na fila para usar uma das cabines. Segundo seu depoimento, Cássia Kis, posicionada atrás dela na fila, questionou sua presença no espaço, afirmando que o Brasil estaria “perdido” por haver “homem no banheiro” e que não existiria placa autorizando a entrada. O episódio foi registrado em vídeo pela própria Roberta e rapidamente viralizou nas redes sociais.
Roberta Santana descreveu o momento como de profundo constrangimento. Em gravação feita no local, ela afirma possuir documento feminino e reforça sua identidade de gênero, respondendo que se trata do banheiro feminino e que não frequenta o masculino. A jovem relatou que os comentários continuaram mesmo após ela entrar na cabine e ao sair do banheiro. “Nunca me senti tão constrangida em toda a minha vida”, declarou em entrevistas posteriores, destacando que o episódio a humilhou publicamente em seu ambiente de trabalho.
O caso ganhou contornos jurídicos ainda no fim de semana. Ativistas, incluindo o suplente de deputado estadual Agripino Magalhães Júnior, protocolaram representação no Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) por suspeita de transfobia. O órgão confirmou o recebimento da denúncia e informou que iniciaria diligências a partir desta segunda-feira, 27 de abril, com a possibilidade de intimar Cássia Kis para prestar esclarecimentos e defesa. A lei brasileira equipara atos de discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero ao crime de racismo, previsto na Lei 7.716/1989, com penas que podem incluir multa e reclusão.
Nesta segunda-feira, Roberta Santana compareceu pessoalmente à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), no Rio, para registrar boletim de ocorrência contra a atriz. Em declarações à imprensa após o registro, a jovem reforçou sua intenção de buscar justiça e afirmou que pretende processar Cássia Kis civil e criminalmente. Ela negou ter recebido qualquer pedido de desculpas da atriz ou de seus representantes até o momento.
Cássia Kis, de 68 anos, veterana da televisão brasileira com extensa carreira na Globo, foi procurada por diversos veículos de comunicação, mas não se manifestou publicamente sobre as acusações. A atriz tem histórico de declarações polêmicas relacionadas a temas de gênero e sexualidade, o que já a colocou em outros processos judiciais no passado, alguns dos quais foram arquivados.
O incidente reacendeu o debate nacional sobre o uso de banheiros por pessoas trans e os limites entre liberdade de expressão e o direito à não discriminação. Enquanto defensores dos direitos LGBTQIA+ veem o episódio como clara violação de dignidade, outros argumentam sobre questões de privacidade e segurança em espaços segregados por sexo biológico. O shopping não se pronunciou oficialmente sobre o caso até o fechamento desta reportagem.
O desfecho do episódio ainda depende das investigações em curso tanto no Ministério Público quanto na polícia especializada. Roberta Santana segue trabalhando no local e afirma que o apoio recebido de ativistas e da sociedade civil a motiva a seguir em frente com a denúncia, buscando não apenas reparação pessoal, mas também o reforço de direitos fundamentais para a comunidade trans no Brasil.



