Famosos

Sem Zezé di Camargo, a aposta do SBT em outro cantor bolsonarista

Na televisão aberta, poucas datas têm tanto peso simbólico quanto o réveillon. É quando as emissoras tentam agradar a família inteira, do tio animado à avó exigente, passando por quem já está de olho no celular antes da contagem regressiva. Neste ano, o SBT fez uma escolha que diz muito sobre o momento atual do entretenimento brasileiro — e, claro, sobre o cruzamento cada vez mais evidente entre música, imagem pública e política.

Após Zezé di Camargo se tornar uma figura pouco desejada na emissora, e acabar ficando de fora de projetos importantes, a solução encontrada foi apostar em um nome com outro astral. Latino foi o escolhido para comandar o show exibido na virada do ano. A troca não é apenas de artista, mas de clima. Sai o sertanejo de tom mais emotivo, entra o pop festivo, dançante e sem grandes pausas para reflexão. Para uma noite que pede leveza, faz sentido.

Nos bastidores, comenta-se que a decisão também evita um desgaste maior com o público. Hoje, não é exagero dizer que parte da audiência escolhe o que assistir levando em conta posicionamentos políticos. O SBT, comandado agora pelas herdeiras de Silvio Santos, parece atento a esse detalhe. A ideia foi não desagradar totalmente um segmento que se sente representado por certos artistas, mas também não afastar quem quer apenas celebrar a chegada de um novo ano sem clima pesado.

Latino, nesse contexto, surge como um nome curioso. Ele nunca escondeu suas posições políticas. Em 2018, declarou apoio público a Jair Bolsonaro, chegou a compor músicas em defesa do então candidato e participou de encontros no Palácio da Alvorada. Em um vídeo que circulou bastante nas redes sociais, apareceu ao lado do presidente com um discurso entusiasmado sobre retomada e futuro. Mais recentemente, em agosto, recebeu em sua casa, em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas, reforçando vínculos que nunca foram exatamente discretos.

Ainda assim, há algo que pesa a favor do cantor: seu histórico musical fala alto. Latino foi um fenômeno nos anos 1990, quando estourou com Me Leva e Só Você, músicas que tocaram à exaustão em rádios e programas de auditório. Nos anos 2000, emplacou Festa no Apê, um daqueles hits que atravessam gerações e continuam funcionando em qualquer pista improvisada. Casamentos, aniversários, karaokês… poucos artistas conseguem esse tipo de presença constante.

Ele também carrega uma imagem mais leve, quase caricata, de quem não se leva tão a sério. Isso ajuda. Em uma noite como o réveillon, o público quer cantar junto, rir, dançar na sala e esquecer por algumas horas das tensões do ano que termina. Latino sabe conduzir esse clima. Ele entende o palco, a câmera e, principalmente, o tempo da festa.

Há uma ironia interessante nisso tudo. Em outros tempos, dançar não precisava rimar com votar. A música era apenas música, sem análise de bastidores ou alinhamentos ideológicos. Hoje, não é mais assim. Cada escolha carrega camadas extras de leitura. O SBT parece ter entendido isso e buscou um meio-termo: alguém com posições claras, mas cuja obra conversa diretamente com o espírito da celebração.

No fim das contas, a aposta é simples. Se a ideia é começar o ano com energia para cima, refrões conhecidos e menos discussão, Latino entrega exatamente isso. E, para a televisão aberta, às vezes o que mais importa é justamente manter o controle remoto longe das mãos inquietas do público na hora da virada.

CONTINUAR LENDO →

LEIA TAMBÉM: