Curiosidades

Quando as mulheres desafiaram regras: a história do biquíni e sua revolução na moda

Poucas peças de roupa conseguiram transformar tanto os costumes quanto o biquíni. Hoje, ele está presente nas praias, piscinas e coleções de moda de diferentes países, mas sua chegada ao mundo esteve longe de ser tranquila. O traje de duas peças que atualmente parece comum foi, durante muito tempo, associado à quebra de padrões de comportamento e à mudança na maneira como o corpo feminino era visto em espaços públicos. Embora roupas de banho de duas peças já existissem antes, o modelo que ficou conhecido como biquíni foi apresentado oficialmente em Paris em 5 de julho de 1946, pelo francês Louis Réard. A peça chamou atenção justamente por revelar uma parte do corpo que os trajes anteriores procuravam manter coberta.

A história, porém, começou antes daquele famoso lançamento. Durante as décadas de 1930 e 1940, algumas mulheres já utilizavam roupas de banho divididas em duas partes, mas os modelos eram muito mais comportados e normalmente mantinham o umbigo coberto. As mudanças sociais, o crescimento da cultura das praias e até as dificuldades econômicas do período contribuíram para que os trajes ficassem menores e mais práticos. O racionamento de tecidos durante a Segunda Guerra Mundial também estimulou a criação de peças que utilizassem menos material. Nesse cenário, designers perceberam que havia espaço para novas propostas, enquanto algumas mulheres começavam a experimentar maneiras diferentes de aproveitar o sol e o lazer à beira-mar.

Foi nesse ambiente que Louis Réard apresentou sua criação. O designer francês desenvolveu um modelo bastante reduzido para os padrões da época, formado por pequenas partes de tecido e capaz de deixar o umbigo à mostra. A escolha do nome também ajudou a transformar a peça em notícia: Réard chamou o traje de “bikini”, fazendo referência ao Atol de Bikini, no Pacífico, que naquele momento estava associado aos testes nucleares realizados pelos Estados Unidos. A intenção era transmitir a ideia de que sua criação teria grande impacto. Para apresentar o modelo, ele contou com Micheline Bernardini, uma dançarina que aceitou vestir a peça quando outras modelos recusaram o convite. O lançamento aconteceu na Piscine Molitor, em Paris, e rapidamente despertou enorme curiosidade.

A reação ao biquíni mostrou que a novidade representava muito mais do que uma simples mudança no guarda-roupa. Em determinados lugares, o modelo encontrou resistência e chegou a ser restringido em praias. Ao mesmo tempo, outras mulheres passaram a adotá-lo, especialmente em regiões do litoral europeu. A popularização ganhou força com o cinema, as revistas e as celebridades, que ajudaram a transformar aquela peça inicialmente considerada ousada em um símbolo da moda de verão. Brigitte Bardot teve papel importante nesse processo durante os anos 1950, enquanto outras produções cinematográficas ajudaram a consolidar a imagem do biquíni na cultura popular. Aos poucos, aquilo que parecia inadequado para muitos passou a fazer parte do cotidiano.

No Brasil, a trajetória do biquíni também ganhou características próprias. Registros históricos apontam que a peça começou a aparecer no país ainda no final dos anos 1940, quando a modelo alemã Miriam Etz foi fotografada usando um modelo de duas peças na Praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. Nas décadas seguintes, o traje ganhou espaço entre vedetes, artistas e frequentadoras das praias cariocas. Já nos anos 1970, a moda brasileira ajudou a criar modelos cada vez mais característicos, incluindo a famosa tanga, que posteriormente conquistaria praias de vários lugares do mundo. Nas décadas seguintes, surgiram novas modelagens, tecidos, amarrações e cortes, mostrando como o biquíni deixou de ser apenas uma peça considerada ousada para se tornar uma categoria inteira da indústria da moda.

Mais de sete décadas depois de sua apresentação oficial, a história do biquíni revela como uma peça de roupa pode acompanhar transformações profundas na sociedade. Seu significado mudou diversas vezes: de novidade controversa a símbolo de verão, passando pela influência do cinema, pela criatividade da moda brasileira e pela diversidade de modelos disponíveis atualmente. Também é importante lembrar que essa transformação não aconteceu de uma hora para outra nem dependeu apenas de um estilista. Ela foi resultado de mudanças nos costumes, na relação com o lazer, na moda e na própria liberdade de cada mulher escolher como deseja se vestir. Por isso, olhar para a trajetória do biquíni é também observar uma parte curiosa da história cultural do século XX — uma história em que pequenas mudanças no tecido acabaram acompanhando grandes mudanças nos hábitos.

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