Curiosidades

Seu tipo sanguíneo pode influenciar o envelhecimento? O que a ciência já descobriu

O tipo sanguíneo costuma ser lembrado principalmente quando precisamos fazer uma transfusão ou descobrir nossa compatibilidade sanguínea. Porém, nos últimos anos, pesquisadores também passaram a investigar se as características do sistema ABO podem estar relacionadas à maneira como o organismo envelhece.

A ideia parece curiosa: ser do tipo A, B, AB ou O poderia influenciar nossa saúde ao longo dos anos?

A resposta, segundo as pesquisas disponíveis, é mais complexa do que parece. Existem associações entre determinados grupos sanguíneos e algumas doenças que se tornam mais importantes com o avanço da idade. Entretanto, isso não significa que um tipo sanguíneo faça uma pessoa envelhecer mais rápido ou determine quanto tempo ela vai viver.

Uma revisão científica publicada em 2026 concluiu que o sistema ABO pode atuar como um modificador relativamente pequeno e dependente do contexto em processos relacionados ao envelhecimento, mas não há evidências suficientes para considerá-lo um marcador independente da idade biológica ou da longevidade.

O que são os tipos sanguíneos?

O sistema ABO divide o sangue em quatro grupos principais:

  • tipo A;
  • tipo B;
  • tipo AB;
  • tipo O.

Essa classificação depende da presença de determinados antígenos nas células vermelhas do sangue.

Existe ainda o fator Rh, responsável pela classificação em positivo ou negativo.

Embora o sistema ABO seja fundamental para transfusões seguras, os antígenos relacionados a ele também estão presentes em outros tecidos e podem participar de processos biológicos além das transfusões.

É justamente essa característica que despertou o interesse dos pesquisadores.

O tipo O pode ter alguma vantagem?

Uma das associações mais estudadas envolve o grupo O e a coagulação do sangue.

Pessoas que não pertencem ao grupo O, ou seja, indivíduos dos grupos A, B e AB, apresentam em média níveis mais elevados de determinados fatores relacionados à coagulação, como o fator de von Willebrand.

Isso pode ajudar a explicar por que diversos estudos encontraram associação entre os grupos não O e um risco maior de eventos trombóticos e algumas doenças cardiovasculares.

Uma grande revisão publicada em 2024 avaliou evidências de diversas revisões sistemáticas e encontrou associações entre grupos ABO/Rh e diferentes desfechos de saúde, embora a força dessas associações varie conforme a doença e a qualidade das evidências.

Isso, porém, não significa que pessoas do tipo O estejam protegidas contra problemas cardiovasculares.

Pressão alta, colesterol elevado, tabagismo, diabetes, excesso de peso, sedentarismo, alimentação e histórico familiar continuam sendo fatores muito mais importantes para a avaliação individual do risco.

E o tipo A?

O sangue tipo A também aparece em pesquisas relacionadas ao envelhecimento e às doenças crônicas.

Alguns estudos associam grupos não O, incluindo o A, a alterações relacionadas à coagulação e ao sistema cardiovascular.

Mas é importante não transformar uma associação estatística em uma previsão individual.

Ter sangue tipo A não significa que uma pessoa desenvolverá determinada doença.

O tipo sanguíneo é apenas uma das muitas características biológicas que podem influenciar o organismo.

Existe um tipo sanguíneo que faz alguém viver mais?

Essa é provavelmente a pergunta mais interessante — e também aquela que exige maior cautela.

Alguns trabalhos antigos encontraram diferenças na distribuição dos tipos sanguíneos entre pessoas muito longevas. Um estudo realizado com centenários japoneses, por exemplo, encontrou uma frequência relativamente maior do tipo B entre os participantes com 100 anos ou mais.

Entretanto, outros estudos chegaram a conclusões diferentes.

Uma análise publicada posteriormente, por exemplo, não encontrou evidências de que o tipo B fosse um marcador de longevidade e chegou a observar uma associação diferente em sua própria população estudada.

Pesquisas mais recentes também reforçam que a relação entre grupo sanguíneo e longevidade permanece inconsistente.

Um estudo publicado em 2025, envolvendo pessoas com 85 anos ou mais, não encontrou diferença significativa na distribuição dos grupos ABO/Rh que sustentasse a ideia de que determinado tipo sanguíneo seja um fator importante para viver mais.

Portanto, não existe atualmente um “tipo sanguíneo da longevidade” comprovado.

Por que o sangue poderia estar relacionado ao envelhecimento?

Os pesquisadores estão investigando diferentes mecanismos.

Uma das possibilidades envolve a saúde dos vasos sanguíneos.

O envelhecimento está associado a mudanças progressivas no sistema cardiovascular. Como os antígenos ABO podem influenciar proteínas envolvidas na coagulação e na função vascular, diferenças entre os grupos sanguíneos poderiam modificar discretamente o risco de determinados problemas.

Outra possibilidade está relacionada à inflamação.

A inflamação crônica de baixo grau é uma característica frequentemente associada ao envelhecimento. Pesquisas sugerem que componentes relacionados ao sistema ABO podem interagir com processos inflamatórios e imunológicos.

Também existem hipóteses envolvendo metabolismo, glicação, microbiota intestinal e funcionamento do sistema imunológico.

A revisão científica mais recente sobre o tema aponta justamente essas possíveis conexões, mas ressalta que os mecanismos ainda não estão completamente esclarecidos.

Uma pesquisa interessante sobre envelhecimento e ferritina

Um estudo publicado recentemente investigou a relação entre tipo sanguíneo, idade e níveis de ferritina.

Os pesquisadores analisaram 3.843 pessoas com 40 anos ou mais e observaram que a relação entre idade e ferritina variava conforme o grupo sanguíneo. As associações foram particularmente observadas entre pessoas dos grupos A e B.

Mas existe uma diferença importante entre encontrar uma associação e provar uma causa.

O estudo não significa que determinado tipo sanguíneo provoque deficiência de ferro ou que todas as pessoas daquele grupo necessitem de suplementação.

São necessários estudos maiores e mais aprofundados para entender o significado clínico desses resultados.

Tipo sanguíneo não determina seu destino

É fácil interpretar essas descobertas de maneira exagerada.

Se um estudo encontra uma associação entre um grupo sanguíneo e determinada doença, isso não significa que todas as pessoas daquele grupo desenvolverão o problema.

Imagine duas pessoas com o mesmo tipo sanguíneo.

Uma pode praticar exercícios regularmente, não fumar, manter uma alimentação equilibrada e controlar a pressão arterial.

A outra pode ser sedentária, fumar, ter pressão alta e apresentar colesterol elevado.

O fato de compartilharem o mesmo tipo sanguíneo não significa que terão a mesma trajetória de saúde.

Genética é apenas uma parte da história.

O que realmente importa para envelhecer bem?

Mesmo que o tipo sanguíneo tenha alguma influência sobre determinados processos biológicos, ele não é algo que possamos modificar.

Por isso, faz muito mais sentido concentrar a atenção nos fatores que podem ser controlados.

Uma alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado, não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool e acompanhar fatores como pressão arterial, glicemia e colesterol têm importância muito maior para a saúde ao longo da vida.

Também é importante manter consultas e exames preventivos de acordo com a idade e as características individuais.

Essas atitudes ajudam a identificar precocemente alterações que podem afetar a saúde durante o envelhecimento.

Afinal, seu tipo sanguíneo influencia o envelhecimento?

Pode influenciar alguns mecanismos relacionados à saúde e às doenças associadas ao envelhecimento, mas não determina como você vai envelhecer nem quanto tempo vai viver.

As evidências mais consistentes atualmente estão relacionadas a diferenças no risco de problemas de coagulação e cardiovasculares entre grupos O e não O. Já a relação direta entre tipo sanguíneo e longevidade continua controversa.

Isso significa que ainda há muito a descobrir.

O tipo sanguíneo pode ser uma pequena peça de um quebra-cabeça biológico muito maior. Mas hábitos de vida, genética, ambiente, condições de saúde, acesso a cuidados médicos e muitos outros fatores também participam desse processo.

No fim das contas, não existe tipo sanguíneo capaz de garantir juventude prolongada ou vida longa.

A ciência pode descobrir novas relações no futuro, mas, por enquanto, a melhor estratégia para envelhecer bem continua sendo cuidar do organismo como um todo — independentemente de o sangue ser A, B, AB ou O.

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