Curiosidades

Antes que você odeie essa planta, saiba por que a beldroega chama tanta atenção

Se você já arrancou uma plantinha que crescia espontaneamente no quintal e simplesmente jogou fora, talvez tenha deixado passar uma espécie que pode ser aproveitada na alimentação.

A planta mostrada na imagem é a beldroega, conhecida cientificamente como Portulaca oleracea. Ela cresce rente ao chão, apresenta caules avermelhados, folhas pequenas e suculentas e, em algumas variedades, pequenas flores amareladas.

Por ser resistente e aparecer facilmente em terrenos, calçadas, jardins e hortas, muita gente a considera apenas uma erva daninha. Mas a beldroega também é consumida como verdura em diferentes partes do mundo e possui características nutricionais interessantes.

Uma planta que muita gente arranca sem conhecer

A beldroega tem crescimento rasteiro e consegue se desenvolver em diferentes condições. Seus caules costumam se espalhar pelo solo, enquanto as folhas carnudas armazenam água.

É justamente esse aspecto que faz com que ela seja facilmente confundida com uma planta sem utilidade.

Na realidade, Portulaca oleracea é utilizada tradicionalmente como alimento e também faz parte da medicina popular de diferentes culturas. Revisões científicas descrevem seu uso tradicional e sua composição rica em diversos compostos vegetais.

Mas existe uma diferença importante entre uso tradicional e tratamento comprovado para uma doença. Apesar do interesse científico pela planta, não significa que chás, emplastros ou preparações caseiras de beldroega possam substituir medicamentos ou tratamentos médicos.

A beldroega pode ser comida?

Sim. A beldroega é uma planta alimentícia e suas folhas e talos jovens podem ser utilizados em preparações culinárias, desde que a identificação seja correta e a planta esteja em condições adequadas para consumo.

Ela pode ser utilizada crua em saladas ou cozida em diferentes preparações. Seu sabor costuma apresentar uma característica levemente ácida e sua textura é suculenta.

A literatura científica destaca a presença de nutrientes e compostos bioativos na planta, incluindo ácido alfa-linolênico (ALA), um tipo de ômega-3, além de vitamina C, vitamina E, minerais e compostos antioxidantes.

Isso não transforma a beldroega em um “superalimento milagroso”, mas explica por que ela vem despertando interesse como hortaliça pouco convencional.

Um dos destaques é o ômega-3 vegetal

Entre as características nutricionais mais interessantes da beldroega está a presença de ALA, um ácido graxo da família dos ômega-3.

Isso é particularmente curioso porque muitas pessoas associam o ômega-3 apenas a peixes e frutos do mar.

A beldroega está entre as hortaliças que apresentam quantidades relevantes de ALA, embora isso não signifique que comer a planta seja equivalente a consumir peixes ricos em EPA e DHA. São diferentes formas de ômega-3 e possuem funções metabólicas distintas.

E as propriedades medicinais?

É aqui que é preciso ter cuidado com as informações que circulam na internet.

Estudos laboratoriais e revisões científicas investigam propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e metabólicas da beldroega. Alguns estudos clínicos também avaliaram seu possível impacto sobre parâmetros como glicemia e perfil lipídico.

Uma revisão sistemática e meta-análise encontrou redução da glicemia de jejum em alguns estudos, mas não encontrou efeito significativo sobre hemoglobina glicada, resistência à insulina e insulina de jejum. Os próprios pesquisadores destacaram que ainda são necessários estudos clínicos melhores e maiores.

Portanto, dizer que a beldroega “cura diabetes”, “limpa o sangue” ou substitui medicamentos seria exagero.

E o emplastro mostrado na imagem?

A imagem apresenta uma preparação caseira da planta sendo colocada sobre a pele.

Esse tipo de utilização está relacionado ao uso tradicional da beldroega em diferentes culturas. A planta possui histórico de aplicação popular para problemas de pele e processos inflamatórios.

Entretanto, não é possível concluir pela imagem que esse emplastro seja capaz de cicatrizar feridas, eliminar infecções ou tratar doenças de pele.

Feridas abertas, queimaduras, infecções ou lesões que não cicatrizam precisam de avaliação adequada. Aplicar uma planta coletada do solo diretamente sobre uma ferida também pode introduzir contaminantes.

A planta também tem um ponto de atenção

Apesar de ser comestível, a beldroega não deve ser tratada como uma planta completamente isenta de riscos.

Um dos principais pontos de atenção é o ácido oxálico/oxalatos presentes na planta. Essas substâncias podem reduzir a disponibilidade de alguns minerais e, em pessoas suscetíveis, contribuir para o aumento da carga de oxalato.

Há inclusive relatos médicos de lesão renal associada ao consumo excessivo de beldroega, incluindo um caso relacionado ao consumo de uma grande quantidade da planta em uma única refeição. Trata-se de uma situação incomum, mas que reforça que “natural” não significa “quanto mais, melhor”.

Cozinhar pode reduzir parte dos oxalatos

Outro detalhe interessante é que o modo de preparo influencia a composição da planta.

Pesquisas recentes indicam que processos culinários como branqueamento e conserva podem reduzir o teor de oxalatos da beldroega. O cozimento em água permite que parte dessas substâncias passe para o líquido, embora a redução dependa do método utilizado.

Por isso, para quem pretende experimentar a planta como alimento, o preparo culinário adequado pode ser uma alternativa interessante.

Quem deve ter mais cuidado?

Pessoas que já tiveram pedras nos rins relacionadas a oxalato, possuem doença renal ou receberam orientação médica para controlar a ingestão de oxalatos devem conversar com um profissional de saúde antes de consumir grandes quantidades da planta.

Também é importante ter atenção especial quando a planta é coletada diretamente do quintal, terreno ou beira de estrada.

Não basta reconhecer a aparência.

É preciso ter certeza da identificação e evitar plantas que possam ter sido expostas a agrotóxicos, produtos químicos, fezes de animais ou outras formas de contaminação.

Como reconhecer a beldroega

Algumas características ajudam na identificação:

crescimento rasteiro;
caules geralmente avermelhados ou arroxeados;
folhas pequenas, verdes e carnudas;
folhas de formato arredondado ou oval;
pequenas flores, frequentemente amarelas;
aspecto suculento, semelhante ao de outras plantas adaptadas a períodos de pouca água.

Mesmo assim, não é recomendável consumir uma planta silvestre apenas com base em uma fotografia. Existem espécies diferentes que podem apresentar características semelhantes.

Uma “erva daninha” que merece ser conhecida

A beldroega é um bom exemplo de como algumas plantas comuns podem ser muito mais interessantes do que parecem.

Durante muito tempo, ela foi simplesmente retirada de hortas e jardins por ser considerada invasora. Hoje, pesquisadores estudam sua composição nutricional, enquanto diferentes culturas continuam utilizando a planta como alimento.

Ela apresenta nutrientes importantes, compostos bioativos e uma quantidade interessante de ALA, mas também contém oxalatos que justificam moderação e atenção em pessoas suscetíveis.

Por isso, talvez a melhor maneira de olhar para essa planta não seja como uma “cura milagrosa”, mas como uma hortaliça pouco conhecida que possui valor nutricional e uma longa história de uso tradicional.

E antes de arrancar aquela plantinha rasteira que apareceu no quintal, vale a pena olhar melhor: pode ser que você esteja chamando de mato algo que, em algumas culturas, vai direto para a panela.

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