Morre homem que afirmava ser o mais velho do mundo

Aos pés das montanhas de Huánuco, no Peru, terminou nesta semana a jornada de uma das histórias mais curiosas e inspiradoras sobre longevidade da América Latina. Marcelino Abad Tolentino, conhecido carinhosamente como “Mashico”, faleceu enquanto dormia, na última segunda-feira (30), apenas cinco dias antes de completar 126 anos, segundo a idade estimada pelo governo peruano.
Sem certidão de nascimento, Mashico nunca teve sua idade oficialmente reconhecida por entidades internacionais. Ainda assim, para o Peru, ele já havia se tornado um símbolo vivo de resistência, simplicidade e conexão profunda com a natureza. A data atribuída ao seu nascimento é 5 de abril de 1900, informação registrada apenas anos depois, quando finalmente recebeu seu primeiro documento de identidade.
A trajetória de Marcelino parece saída de um romance latino-americano. Órfão ainda na infância, após perder os pais em um acidente durante a travessia de um rio, ele cresceu em uma área rural isolada, longe da escola e de qualquer estrutura do Estado. Aprendeu cedo a viver do que a terra oferecia: cultivava frutas, legumes, criava animais e também trabalhou como pedreiro ao longo da vida. Essa rotina, marcada pelo esforço físico e pelo contato diário com o campo, moldou sua história por mais de um século.
O mais impressionante é que Mashico só “passou a existir” oficialmente para o governo peruano em 2019, quando equipes do programa social Pensión 65 o encontraram em uma região remota de Chaglla. A descoberta chamou atenção nacional porque ele vivia praticamente invisível aos registros públicos, mesmo já sendo conhecido por moradores locais como um senhor de idade extraordinária. A partir dali, recebeu assistência, documento e acesso a cuidados básicos.
Nos últimos anos, após uma queda que comprometeu sua mobilidade, ele passou a viver em uma casa de acolhimento para idosos, onde usava cadeira de rodas e recebia acompanhamento permanente. Foi nesse local, em Huácar, que encerrou sua caminhada de forma serena, durante o sono, cercado pelo cuidado de profissionais e pessoas que aprenderam a admirar sua história.
Solteiro e sem filhos, Mashico costumava atribuir sua longevidade a uma vida sem excessos: alimentação natural, frutas e verduras do próprio cultivo, ervas tradicionais e o costume andino de mascar folhas de coca para manter a disposição nas tarefas do campo. Para muitos, sua rotina simples reforça uma discussão cada vez mais atual sobre bem-estar, envelhecimento saudável e a importância de hábitos menos industrializados.
Embora nunca tenha entrado oficialmente para o Guinness World Records, sua história repercutiu em vários países justamente por levantar uma pergunta fascinante: até onde o estilo de vida pode influenciar a longevidade? Em tempos em que saúde mental, alimentação limpa e qualidade de vida estão no centro dos debates, a vida de Mashico parece dialogar com questões muito contemporâneas.
Mais do que um número impressionante, Marcelino Abad Tolentino deixa como legado a imagem de um homem simples, moldado pela terra, pelo silêncio do campo e por uma existência que atravessou gerações. Seu nome talvez não esteja nos livros de recordes, mas certamente permanecerá na memória de quem vê na simplicidade uma forma genuína de viver muito — e viver bem.



