Foi isso que Fernanda Torres falou no comercial da Havaianas que deixou a direita revoltada

A campanha publicitária de fim de ano da Havaianas, lançada em dezembro de 2025 e estrelada pela renomada atriz Fernanda Torres, rapidamente se transformou em um dos episódios mais comentados nas redes sociais brasileiras, gerando uma onda de indignação entre setores da direita política. O comercial, veiculado inicialmente no Instagram da marca e em canais de televisão, apresenta Torres em um tom leve, descontraído e motivacional, incentivando os espectadores a entrarem no novo ano com energia, atitude e plenitude pessoal, em vez de depender apenas de superstições ou da mera sorte.
O ponto central da controvérsia reside em uma frase específica dita pela atriz logo no início do vídeo: “Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito”. Essa expressão, comumente associada à tradição popular de boa fortuna e sucesso, foi interpretada por críticos conservadores como uma alusão deliberada e negativa à “direita” política, especialmente em um contexto de polarização intensa, com 2026 marcando o ano de novas eleições gerais no Brasil. A menção ao “pé direito” foi vista como uma provocação sutil contra o campo conservador e bolsonarista.
No entanto, Fernanda Torres prossegue explicando o raciocínio de forma clara e sem qualquer referência explícita a partidos, ideologias ou figuras políticas: “Não, não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte não depende de você, depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o Ano Novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés”. O texto enfatiza expressões idiomáticas brasileiras que simbolizam ação decisiva, compromisso total e imersão completa na vida, promovendo uma mensagem de empoderamento individual e proatividade.
Apesar da ausência de conteúdo partidário evidente, a reação foi imediata e amplificada nas redes sociais, com políticos e influenciadores de direita acusando a marca de adotar um viés ideológico esquerdista. Figuras como os deputados federais Bia Kicis, Rodrigo Valadares, Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro, além de vereadores e ex-ministros bolsonaristas, manifestaram publicamente sua revolta, alegando que a campanha representava uma ataque velado ao conservadorismo, especialmente ao associar a rejeição ao “pé direito” a uma suposta preferência pelo “pé esquerdo”.
A polêmica ganhou contornos adicionais pelo histórico recente de Fernanda Torres, que em 2025 conquistou projeção internacional ao protagonizar o filme “Ainda Estou Aqui”, uma obra que retrata as sequelas da ditadura militar no Brasil e que recebeu prêmios como o Oscar de Melhor Filme Internacional. Essa trajetória já a tornava alvo recorrente de críticas em círculos conservadores, que a rotulam como alinhada à esquerda, intensificando as leituras políticas da propaganda e questionando a escolha da atriz pela Havaianas, marca pertencente ao grupo controlado pela família Moreira Salles.
Como resposta, surgiu um movimento organizado de boicote à marca, com usuários compartilhando vídeos de chinelos sendo jogados no lixo, cortados ou descartados, e sugerindo alternativas como Rider, Ipanema, Melissa, Cartago, Olympikus ou Crocs. Hashtags e publicações incentivando o “cancelamento” viralizaram, enquanto alguns parlamentares gravaram mensagens explicitando sua decisão de abandonar os produtos, argumentando que a empresa havia “misturado sandália com ideologia” e escolhido um lado na divisão política do país.
Esse episódio ilustra o grau extremo de polarização no Brasil contemporâneo, onde até peças publicitárias leves e cotidianas, baseadas em jogos de palavras e expressões culturais populares, são reinterpretadas sob lentes ideológicas rígidas, transformando uma mensagem motivacional em um campo de batalha simbólico. A Havaianas, até o momento, optou por remover o vídeo de alguns perfis oficiais sem emitir pronunciamento público detalhado sobre as acusações, enquanto Fernanda Torres também se manteve em silêncio, deixando a discussão se desenrolar predominantemente nas redes sociais e na mídia.



