Dona de Mim se perde em disputas e transforma drama familiar em novela de tribunal

A novela Dona de Mim chega à sua reta final com a sensação de desgaste evidente para parte do público. Com 218 capítulos, a trama precisou recorrer a expedientes narrativos repetitivos para se sustentar no ar, e o principal deles foi a insistência em conflitos judiciais. O que poderia ser um tempero pontual acabou se tornando o eixo central da história, comprometendo o ritmo e a variedade dramática.
Ao longo de sua exibição, a obra passou a funcionar quase como uma versão brasileira de séries jurídicas, misturando investigações policiais e disputas em tribunais. Marlon assumiu o braço policial da narrativa, enquanto a família Boaz se tornou refém de processos, audiências e batalhas legais intermináveis. Esse foco excessivo afastou a novela de sua proposta inicial mais emocional e cotidiana.
Abel travou uma longa disputa com Vanderson pela guarda de Sofia, em uma trama que se estendeu além do necessário. Samuel, por sua vez, enfrentou o tio Jaques em embates pela curatela de Rosa e depois brigou com Filipa pelo direito de cuidar da irmã de criação. Cada vitória parecia provisória, sempre abrindo espaço para um novo conflito semelhante.
Até personagens que poderiam representar alívio ou leveza acabaram sugados pelo clima litigioso. Leo, originalmente apresentada como babá, entrou em uma disputa pela guarda de uma criança com quem não tinha laços de sangue nem condições financeiras equivalentes às da família Boaz. O conflito soou forçado e reforçou a sensação de repetição que passou a dominar a narrativa.
No núcleo empresarial, a fábrica de lingerie virou palco de um ciclo cansativo de trocas de poder. Jaques assumia o controle, demitia funcionários, era derrubado, retomava as ações e perdia novamente. As mudanças constantes não traziam consequências duradouras, dando ao público a impressão de que a história girava em círculos sem avançar de fato.
A reta final promete insistir na mesma fórmula. Ellen, após forjar a própria morte, retorna para reivindicar a guarda da filha biológica que abandonou. Hudson, fiel ao seu perfil oportunista, também surge interessado nas ações da empresa pertencentes à menina. O retorno aos tribunais reforça a ideia de que a novela não encontrou outra forma de encerrar seus conflitos.
Histórias jurídicas podem ser envolventes quando os operadores do Direito são o centro da trama. Em Dona de Mim, porém, advogados e juízes surgem apenas como ferramentas narrativas, sem profundidade. As decisões legais frequentemente ignoram procedimentos básicos, afastando até espectadores familiarizados com a área jurídica.
Essa liberdade excessiva em relação às regras do Direito enfraquece a credibilidade da história. Para que a trama avance, leis são flexibilizadas conforme a conveniência do roteiro, o que contribui para a percepção de artificialidade. O público passa a assistir mais por hábito do que por envolvimento real com os conflitos apresentados.
Há a sensação de que a autora tentou adaptar para a novela ideias que não encontraram espaço em outros projetos, resultando em um excesso de temas jurídicos. Isso não torna a obra completamente ruim, mas prejudica seu equilíbrio. Até o arco da protagonista sofre, marcado por uma relação de dependência emocional questionável com Sofia.
No fim, Dona de Mim deixa a impressão de uma história que poderia ter sido mais concisa e variada. A repetição de disputas pela guarda da mesma criança se tornou exaustiva, minando o impacto dramático. O público, já cansado de audiências e sentenças, parece apenas esperar que o martelo final seja batido e a novela chegue ao fim.



