VÍDEO: Manifestantes colocam fogo em SP após 48h sem energia

A sensação de estar abandonado pelo básico — algo tão simples quanto apertar o interruptor e ver a luz acender — dominou o clima no Grajaú, zona sul de São Paulo, nesta sexta-feira, 12 de dezembro. Depois de quase 48 horas no escuro, moradores cansaram de esperar por explicações formais e decidiram ocupar as ruas. O protesto, que começou no final da tarde, acabou bloqueando um trecho da Avenida Belmira Marin, uma das principais da região.
O que chamou atenção não foi apenas o ato em si, mas a forma como ele nasceu: espontâneo, quase como um desabafo coletivo. Nas redes sociais, vídeos feitos pelos próprios moradores circularam rapidamente. Em um deles, um manifestante reclamava que “os carros da Enel passam aqui e não fazem nada”. A frase, dita com uma mistura de exaustão e frustração, virou espécie de resumo do sentimento local.
O apagão teve origem nas fortes ventanias causadas por um ciclone extratropical, que deixou rastros em vários pontos da capital. Rajadas que chegaram perto dos 96 km/h derrubaram árvores, danificaram estruturas e colocaram em alerta quem precisou sair de casa naquele dia. Embora boa parte da cidade tenha voltado ao normal nas primeiras horas após a ventania, o Grajaú enfrentou uma realidade bem diferente: dias de espera, geladeiras desligadas, alimentos estragando e noites completamente silenciosas — apenas a escuridão, como relataram vários moradores.
Durante o protesto, pneus foram queimados e o trânsito ficou lento. A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros acompanharam toda a ação e controlaram as chamas, permitindo que a via fosse liberada pouco depois. A Secretaria da Segurança Pública informou que, apesar do transtorno, o ato terminou sem incidentes graves. Tudo ocorreu dentro de um ambiente tenso, sim, mas sem maiores conflitos.
A Enel, concessionária responsável pelo fornecimento de energia na região, soltou uma nota dizendo que ainda não era possível definir um prazo para o restabelecimento total. Segundo a empresa, algumas áreas demandam uma “reconstrução completa da rede”, incluindo troca de postes, transformadores e cabos que foram comprometidos pela tempestade. A companhia afirmou também ter mobilizado cerca de 1.600 equipes de campo e fornecido 700 geradores para locais prioritários, como unidades de saúde.
Apesar disso, a paciência dos moradores já havia se esgotado. Pessoas que trabalham em casa relataram perda de dias produtivos. Quem depende de aparelhos eletrônicos para estudar ficou parado no tempo. Pequenos empresários da região comentaram que tiveram prejuízos com mercadorias que não resistiram ao calor. Uma moradora afirmou, com um tom que traduz bem o clima predominante: “Pagamos caro por um serviço essencial e ficamos esquecidos”.
É curioso como, no dia a dia, a energia elétrica passa quase despercebida. Só sentimos sua importância quando falta. E, no caso do Grajaú, faltou por tempo demais. A rotina de milhares de pessoas foi interrompida de uma forma que poderia ser evitada com respostas mais rápidas e uma infraestrutura mais resistente aos eventos climáticos que, cada vez mais, fazem parte da nossa realidade — basta lembrar dos diversos temporais que atingiram o Sudeste neste fim de ano.
Enquanto a Enel promete acelerar os reparos, a comunidade segue aguardando algo que não é luxo, não é favor e nem deveria ser motivo para protesto: a volta da luz e, junto com ela, o sentimento de normalidade que toda família merece.



