Produtora do filme de Bolsonaro pagou R$ 12 milhões a suspeito de jogar mulher do 10º andar

Nos últimos dias, uma reportagem de Demétrio Vecchioli, publicada pelo portal Metrópoles nesta quinta-feira (11), reacendeu um debate que já vinha borbulhando nos bastidores da política paulistana. O assunto não é exatamente novo, mas ganhou novos contornos após revelações sobre o contrato de R$ 108 milhões firmado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) com o Instituto Conhecer Brasil (ICB). Para quem não acompanhou desde o começo, trata-se da mesma instituição envolvida na produção brasileira do filme Dark Horse, obra que, segundo analistas, tenta reforçar narrativas favoráveis à ultradireita ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A polêmica começou a ganhar corpo na quarta-feira (10), quando o site The Intercept trouxe à tona que o ICB — uma ONG presidida por Karina Ferreira da Gama, sem histórico conhecido na área de cinema — teria recebido os R$ 108 milhões para fornecer sinal de internet Wi-Fi em comunidades de baixa renda de São Paulo. Um serviço essencial, claro, mas que despertou a atenção pelo valor e pelas condições do contrato. A partir daí, a história seguiu desdobramentos que parecem roteiro de filme, só que bem distante da ficção.
Entre os pontos mais sensíveis, a apuração mostra que R$ 12 milhões desse montante foram repassados a Alex Leandro Bispo dos Santos, identificado como responsável pela empresa Favela Conectada. O nome dele voltou ao noticiário nesta semana por outro motivo: Alex foi preso na terça-feira (9), acusado de envolvimento na morte da esposa, Maria Katiane Gomes da Silva, em um episódio ocorrido no fim de novembro. O caso, inicialmente tratado como possível queda acidental, passou a ser investigado com mais rigor após câmeras de segurança registrarem agressões e depoimentos contraditórios.
A reportagem aponta que Alex não era apenas um contratado; sua relação com o ICB levanta suspeitas pela falta de clareza documental. O contrato original trazia apenas o nome “Alex” e o CPF ocultado. Só mais tarde o documento foi atualizado, incluindo o nome completo dele e os dados de Maria Katiane, que assinava como testemunha. Esse detalhe reacendeu questionamentos sobre a integridade de todo o processo.
Outro aspecto que chamou atenção é o valor pago por cada ponto de internet instalado: R$ 1,8 mil, mais de cinco vezes acima do valor cobrado pela Prodam, empresa municipal de tecnologia. Do montante repassado pela prefeitura, a produtora ligada ao Dark Horse teria destinado R$ 712 por mês por ponto à Favela Conectada, mesmo em um contrato que, segundo o Metrópoles, funcionou de maneira efetiva por pouco mais de dois meses — ainda assim, com 12 mensalidades pagas.
Um detalhe curioso revelado pela investigação é que a Favela Conectada funciona no mesmo endereço do ICB, que acabou se tornando produtora associada do filme em questão. Isso cria uma sobreposição de vínculos que, no mínimo, merece explicações mais claras.
Embora novos desdobramentos ainda possam surgir, o caso já coloca foco sobre a necessidade de transparência no uso de recursos públicos e também sobre empresas que assumem projetos de grande impacto social. Afinal, quando a estrutura pública se mistura com interesses privados, o mínimo que se espera é clareza absoluta nos contratos, nas entregas e nos caminhos que cada real percorre.



