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Votação da Dosimetria teve recado de Bolsonaro e conversas com STF

A sessão que colocou em pauta o PL da Dosimetria — projeto que reduz as penas de Jair Bolsonaro e de outros envolvidos nos acontecimentos de 8 de Janeiro — não foi apenas mais um capítulo da rotina parlamentar em Brasília. Por trás das quase três centenas de votos favoráveis, houve uma combinação de recados internos, articulações cuidadosas e conversas discretas entre diferentes poderes da República. Quem acompanhou de perto relata que o clima nos bastidores lembrava semanas de votação importantes, como a das reformas de 2023, quando cada gesto parecia calculado.

O movimento começou ainda na manhã de terça-feira (9/12), com uma visita da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao ex-presidente, que segue na carceragem da Polícia Federal. Depois do encontro, ela teria repassado à liderança do PL um pedido objetivo: apoiar o projeto que concede a redução das penas. A informação foi confirmada pelo deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), líder da bancada na Câmara. Ele descreveu que recebeu o recado diretamente de Michelle, que transmitia o posicionamento de Bolsonaro sobre a votação.

Segundo Sóstenes, a orientação era clara: votar a favor do texto tal como estava sendo encaminhado, sem insistir na retomada da versão original, que falava em anistia mais ampla. Essa mudança de foco — da anistia total para a dosimetria — já vinha sendo discutida internamente no partido, mas o aval explícito do ex-presidente acabou selando o encaminhamento final da bancada.

Enquanto isso, em outra frente menos visível ao público, ocorriam conversas entre líderes da Câmara e ministros do Supremo Tribunal Federal. Essas tratativas foram conduzidas pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), que buscava evitar que o projeto fosse interpretado como uma afronta ao Judiciário ou que gerasse insegurança jurídica. A ideia era garantir que o texto chegasse ao plenário com o mínimo de dúvidas sobre sua viabilidade.

Embora o relatório do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP) tenha sido oficialmente apresentado só na terça-feira, a verdade é que ele já estava redigido havia semanas. Quem acompanha Paulinho percebeu que ele adotou um tom seguro ao explicar o parecer. A jornalistas, chegou a comentar que, por não ter recebido qualquer sinalização contrária de ministros do Supremo, estava “tranquilo” com a redação construída. Afirmou ainda acreditar que eventuais contestações não teriam êxito.

A votação confirmou o placar esperado pelos articuladores: 291 votos favoráveis e 148 contrários. Um resultado expressivo, considerando o ambiente político dividido dos últimos anos. Logo após a aprovação, o projeto seguiu para o Senado, onde o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) já se comprometeu a colocá-lo em votação antes do início do recesso parlamentar — previsto para o final da próxima semana.

Nos corredores, a sensação é de que o tema ainda deve gerar debate, principalmente entre grupos mais polarizados. Mas, ao menos por agora, prevaleceu a estratégia de reduzir tensões e construir uma saída intermediária. E, como costuma acontecer em Brasília, o que se vê no plenário é só parte do enredo. O resto acontece nas conversas reservadas, nos recados enviados de um lado ao outro e na habilidade de cada liderança em costurar apoios — um trabalho que nem sempre aparece, mas que faz diferença no resultado final.

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