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Caiado respeita escolha de Bolsonaro por Flávio, mas mantém pré-candidatura à Presidência em 2026

A escolha de Jair Bolsonaro por lançar o filho Flávio como pré-candidato à Presidência da República em 2026 pegou de surpresa grande parte do campo conservador brasileiro. O anúncio, feito em meio a um evento partidário no Rio de Janeiro, rompeu com a expectativa de que o próprio ex-presidente tentaria voltar ao Planalto ou, ao menos, indicaria um nome de fora do núcleo familiar mais próximo. A decisão reforça a estratégia de perpetuação do bolsonarismo como marca política familiar e, ao mesmo tempo, expõe as fragilidades de uma direita que ainda busca um nome capaz de unificar diferentes alas.

Entre os primeiros a reagir publicamente estava o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que há meses vem se colocando como pré-candidato natural da centro-direita. Em nota divulgada poucas horas depois do anúncio, Caiado adotou tom conciliador, afirmando que respeita a decisão de Bolsonaro e reconhece o direito do ex-presidente de apostar no filho. A mensagem, porém, carregava um recado implícito: o projeto pessoal de Caiado segue intacto e não será abandonado apenas por deferência ao clã Bolsonaro.

A manifestação de Caiado revela o delicado equilíbrio que a direita brasileira tenta construir para 2026. De um lado, o peso eleitoral de Bolsonaro continua sendo o principal ativo do campo conservador; de outro, líderes regionais como Caiado, Tarcísio de Freitas e Romeu Zema entendem que depender exclusivamente do ex-presidente pode ser arriscado, seja pela inelegibilidade até 2030, seja pela rejeição elevada em setores do eleitorado moderado. O governador goiano, com sua trajetória histórica no antigo DEM e agora no União Brasil, aposta na imagem de gestor experiente e menos radical para atrair esse público.

O episódio também expõe a dificuldade de coordenação entre os principais partidos de direita. O PL de Valdemar Costa Neto abraça o projeto familiar dos Bolsonaro, enquanto o União Brasil, o Republicanos e parcelas do PP flertam com candidaturas próprias ou terceiras vias conservadoras. A fragmentação, que já custou caro em 2022, volta a assombrar o campo, especialmente porque Lula, mesmo com desgaste natural de governo, ainda lidera as pesquisas de intenção de voto.

A resposta educada de Caiado, portanto, não deve ser lida como submissão. Nos bastidores, aliados do governador interpretam o movimento de Bolsonaro como tentativa de manter o controle do calendário e das narrativas da direita. Ao não atacar diretamente Flávio, Caiado preserva pontes com o bolsonarismo raiz, mas deixa claro que não abrirá mão de sua pré-candidatura enquanto não houver um acordo mais amplo – algo que, por ora, parece distante.

Nos próximos meses, o tabuleiro da sucessão presidencial deve ganhar novos contornos. Se Flávio Bolsonaro conseguir consolidar apoios fora do núcleo duro do PL e demonstrar viabilidade em pesquisas, parte dos governadores pode rever estratégias. Caso contrário, nomes como Caiado e Tarcísio ganharão ainda mais força para defender candidaturas próprias ou uma frente ampla anti-PT que inclua até setores do centro.

Por enquanto, a direita brasileira vive o paradoxo de ter um líder popular inelegível e um herdeiro político ainda em teste. A nota respeitosa de Ronaldo Caiado é apenas o primeiro capítulo de uma negociação longa e cheia de desconfianças. Em 2026, ou o bolsonarismo se renova pela via familiar, ou a centro-direita finalmente consegue impor um nome capaz de falar além das bolhas ideológicas. O Brasil, como sempre, assiste a tudo de camarote – e paga a conta.

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