Há 9 anos, acontecia um dos plantões mais tristes da TV Globo

Na madrugada de 29 de novembro de 2016, o Brasil acordou com uma das notícias mais devastadoras de sua história esportiva. O avião que transportava a delegação da Associação Chapecoense de Futebol, jornalistas e convidados, com destino a Medellín para a disputa da primeira partida da final da Copa Sul-Americana, desaparecera dos radares na região montanhosa próxima ao aeroporto de Rionegro, na Colômbia. A incerteza inicial rapidamente se transformou em confirmação de tragédia: o voo LaMia 2933 sofrera um acidente que ceifaria 71 das 77 vidas a bordo.
A queda do avião não foi causada por condições climáticas adversas nem por falha mecânica repentina, mas por uma sucessão de erros humanos graves. A aeronave decolara de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, com combustível insuficiente para completar o trajeto e sem margem de segurança para imprevistos. O piloto, que também era um dos sócios da companhia aérea boliviana LaMia, optou por não realizar escala para reabastecimento, confiando em um planejamento no limite extremo. Quando o combustível acabou, o avião perdeu sustentação e colidiu contra o Cerro Gordo, a poucos quilômetros do destino.
Entre as vítimas estavam quase toda a comissão técnica, o elenco principal da Chapecoense e dezenas de profissionais de imprensa que haviam acompanhado a trajetória meteórica do clube catarinense. Em poucos anos, a equipe havia ascendido da Série D à elite do futebol brasileiro e estava a um passo de conquistar seu primeiro título internacional. A cidade de Chapecó, com pouco mais de 200 mil habitantes, perdeu, em minutos, boa parte de seus maiores símbolos de orgulho e identidade coletiva.
A comoção transcendeu fronteiras. Clubes rivais brasileiros, adversários históricos e torcidas de todo o mundo manifestaram solidariedade imediata. O Atlético Nacional, adversário na final, pediu à Conmebol que declarasse a Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana de 2016 – pedido que foi atendido em um gesto raro no futebol competitivo. Estádios se encheram de homenagens, camisas verdes foram penduradas em silêncio, e o planeta esportivo pareceu parar por alguns dias.
Dos seis sobreviventes iniciais – os jogadores Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto, o jornalista Rafael Henzel, a aeromoça Ximena Suárez e o técnico de voo Erwin Tumiri –, apenas cinco permanecem vivos hoje. Cada um carrega sequelas físicas e emocionais profundas. Follmann teve a perna direita amputada, Ruschel e Neto passaram anos em recuperação intensiva, e Henzel, voz marcante da crônica esportiva catarinense, faleceu em 2019 vítima de um infarto. Suas histórias de superação tornaram-se parte indissociável do legado da tragédia.
Nove anos depois, a Chapecoense reconstruiu-se contra todas as probabilidades. Com jogadores emprestados, comissão técnica remontada às pressas e apoio maciço da comunidade, o clube voltou a campo apenas 18 dias após o acidente. Subiu novamente à Série A, revelou novos talentos e mantém viva a memória das vítimas em cada partida na Arena Condá, onde 71 cadeiras permanentes permanecem vazias e verdes no setor oeste.
O dia 29 de novembro permanece como uma cicatriz aberta na alma do futebol brasileiro. Ele nos lembra da fragilidade da vida, da força da união em meio à dor e da capacidade de renascimento mesmo diante da perda irreparável. A Chapecoense não é mais apenas um clube: tornou-se um símbolo eterno de resiliência, respeito e amor incondicional ao esporte.



