Xuxa Meneghel desabafa após 40 anos e põe fim definitivo ao boato do pacto

Xuxa Meneghel, a eterna Rainha dos Baixinhos, precisou mais uma vez, aos 62 anos, sentar diante de um microfone e explicar algo que parece pertencer a outro século: não, ela nunca fez pacto com o diabo. A declaração veio em novembro de 2025, no podcast Ambulatório da Moda, e soou como um suspiro cansado de quem já respondeu a mesma pergunta milhares de vezes desde os anos 80. O que era para ser apenas mais um papo leve sobre carreira virou desabafo, porque o boato, teimosamente, sobrevive.
Tudo começou quando ela era a maior estrela infantil do Brasil. Discos de vinil eram tocados ao contrário por adolescentes e pais assustados que juravam ouvir vozes demoníacas sussurrando entre as faixas do Xou da Xuxa. A frase “o cara lá de cima” na música Lua de Cristal foi interpretada como prova irrefutável: ela não podia dizer “Deus” porque havia vendido a alma. O Brasil católico e supersticioso dos anos 80 engoliu a história com gosto, e o que era brincadeira de programa sensacionalista virou verdade absoluta para muita gente.
O curioso é que o sucesso dela era explicável sem nenhuma intervenção sobrenatural. Trabalhou como modelo aos 16, foi descoberta por Maurício Sherman, virou Paquita do programa do Capitão Azevedo, apresentou um quadro no Planeta Xuxa, explodiu na Manchete e depois na Globo com um programa matinal que nenhum adulto admitia ver, mas toda criança do país assistia. Audiência, merchandising, discos de platina, filmes que lotavam cinema: tudo isso aconteceu porque ela era carismática, loira, alta, falava com criança como se fosse criança e tinha uma equipe que entendia o poder da televisão aberta.
Mesmo assim, o boato resistiu a três décadas de desmentidos. Pastores em cultos de domingo citavam o nome dela como exemplo de quem “parece abençoado, mas na verdade está condenado”. Crianças cresciam ouvindo dos pais que não podiam assistir porque “aquela loira fez pacto”. Xuxa ria amarelo em entrevistas antigas, tentava fazer graça, mas o incômodo sempre apareceu no canto do olho. Chegou a dizer que quem acreditava nisso era “burro”, perdeu processos contra igrejas, pagou advogado, tudo para ver a história ressurgir anos depois no YouTube e no TikTok como se fosse novidade.
Agora, mais velha e com a voz mais rouca, ela fala com outra energia. Não é raiva, é cansaço misturado com pena. Disse que essas histórias tiram o brilho das oportunidades que Deus deu a ela, que desvalorizam o suor de quem acordava às quatro da manhã para gravar programa infantil. Falou que as pessoas preferem dar força “pro cara lá de baixo” do que reconhecer trabalho duro. Pela primeira vez, soou menos como a Xuxa apresentadora e mais como uma mulher comum que só queria que parassem de inventar coisa sobre a vida dela.
O mais irônico é que, quanto mais ela nega, mais o boato parece se alimentar. É o clássico mecanismo das teorias da conspiração: o desmentido vira prova de acobertamento. Se ela ignora, é porque tem medo. Se ela fala, é porque está nervosa. O pacto que nunca existiu virou o maior papel da carreira dela – um que ela nunca quis interpretar e nunca conseguiu largar.
No fim, o que resta é uma mulher que construiu um império com paetê, nave espacial e bom dia, baixinhos, ainda tendo que provar que não vendeu a alma para chegar onde chegou. Talvez a verdadeira lição não seja sobre Xuxa, mas sobre nós: preferimos acreditar que o sucesso dos outros só pode ser explicado por magia negra do que aceitar que, às vezes, talento, timing e muito trabalho bastam. E isso, convenhamos, assusta mais do que qualquer demônio.



