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Lula tenta mediar crise entre EUA e Venezuela para evitar conflito na América do Sul

A crise venezuelana voltou ao centro do tabuleiro geopolítico em novembro de 2025, impulsionada pela decisão do governo Trump de intensificar a presença militar norte-americana no Caribe e reforçar sanções contra o que Washington classifica como “Cartel dos Sóis”, estrutura supostamente comandada por Nicolás Maduro e altos funcionários do chavismo. O movimento reacende temores de uma intervenção direta, algo que parecia distante após os fracassos do início do século e as mudanças de prioridade dos Estados Unidos na última década. Diante desse cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu assumir protagonismo diplomático, posicionando o Brasil como mediador improvável entre Caracas e Washington.

Desde o início do mês, Lula tem reiterado que o Brasil não pode permanecer indiferente a uma possível escalada militar na vizinhança. A fronteira de quase 2.200 quilômetros com a Venezuela, os quase um milhão de refugiados venezuelanos já instalados no território brasileiro e o risco de um novo fluxo migratório descontrolado são argumentos pragmáticos que sustentam sua atuação. Para o governo brasileiro, qualquer conflito armado na região representaria um custo humanitário e econômico inaceitável, especialmente em um momento de recuperação pós-pandemia e de esforço para atrair investimentos estrangeiros.

A estratégia de Lula combina gestos públicos de apaziguamento com contatos discretos nos bastidores. No encerramento da cúpula do G20 na África do Sul, anunciou que telefonaria pessoalmente a Donald Trump para tentar evitar “um tiro que ninguém sabe onde vai parar”. Horas depois, o chanceler Mauro Vieira reforçou que o Brasil defende a soberania venezuelana, mas também eleições livres e a formação de um governo de transição como única solução sustentável. Trata-se de uma linha tênue: criticar o autoritarismo de Maduro sem romper com ele, ao mesmo tempo em que se oferece como interlocutor aceitável para os Estados Unidos.

A iniciativa brasileira, porém, enfrenta resistências internas e externas. No Congresso e nas redes sociais, opositores acusam o governo de proteger uma ditadura responsável por graves violações de direitos humanos e por alimentar o crime organizado transnacional. A percepção de que Lula estaria mais preocupado em preservar o legado ideológico da esquerda latino-americana do que em defender os interesses nacionais ganha força entre setores da classe média e das Forças Armadas, que veem com desconfiança qualquer aproximação excessiva com Caracas.

Do outro lado do Atlântico, a receptividade em Washington é incerta. Trump, que fez da mudança de regime na Venezuela uma promessa de campanha não cumprida em seu primeiro mandato, parece pouco disposto a concessões que não impliquem na saída definitiva de Maduro. Analistas em Brasília admitem nos bastidores que a margem de sucesso da mediação brasileira é estreita, dependendo menos de boa vontade e mais da capacidade de Lula vender a Trump a ideia de que uma solução negociada seria uma vitória política mais barata e duradoura do que uma nova aventura militar na América Latina.

Enquanto os aviões de patrulha P-8 Poseidon sobrevoam o Caribe e navios da Quarta Frota realizam exercícios próximos às águas venezuelanas, o Brasil tenta ganhar tempo. Diplomatas brasileiros já mantêm canais abertos tanto com o Departamento de Estado quanto com representantes do governo venezuelano, buscando costurar um diálogo que inclua garantias de não-intervenção em troca de um cronograma crível de abertura política em Caracas. A tarefa é hercúlea, mas o Planalto acredita que o simples fato de manter as partes conversando já reduz o risco imediato de confronto.

No fim das contas, a atuação de Lula reflete uma visão antiga do Itamaraty: a de que o Brasil só será potência regional se conseguir impedir que conflitos alheios cheguem às suas fronteiras. Se a mediação fracassar e a temperatura subir, o Brasil terá que lidar com as consequências de uma guerra às portas de Roraima. Se obtivera êxito, ainda que parcial, Lula poderá reivindicar o papel de estabilizador de uma América do Sul que, mais uma vez, ameaça descarrilar. Por ora, o telefone entre Brasília e Mar-a-Lago permanece como a aposta mais arriscada — e talvez a única viável — para evitar que 2025 termine com imagens de tanques nas ruas de Caracas e novas caravanas de venezuelanos batendo à porta do Brasil.

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