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Mulher que foi agredida com 61 socos ataca Bolsonaro e faz graves acusações: ‘Misógino…’

A história de Juliana Garcia, a jovem que sobreviveu a 61 socos desferidos pelo ex-namorado dentro de um elevador em 2023, voltou ao centro do debate público brasileiro em novembro de 2025. O que inicialmente foi tratado como um caso emblemático de violência doméstica e tentativa de feminicídio transformou-se, dois anos depois, em símbolo de como a polarização política no país consegue revitimizizar vítimas e transformar sobreviventes em alvos de linchamento virtual simplesmente por expressarem opiniões.

No dia 22 de novembro de 2025, data que coincide com o número do Partido Liberal, Juliana publicou um vídeo curto comemorando, com ironia contida, a decretação da prisão preventiva de Jair Bolsonaro por suposto envolvimento em atos antidemocráticos. A frase “vinte e dois motivos para sermos felizes hoje” foi suficiente para desencadear uma avalanche de ataques coordenados por perfis bolsonaristas, muitos dos quais resgataram as imagens brutais da agressão que ela sofrera para justificar novos insultos ou até desejar que “os 61 socos não tivessem sido em vão”.

Diante da nova onda de violência digital, Juliana respondeu com um segundo vídeo, gravado com serenidade impressionante. Nele, afirmou categoricamente que nunca apoiou e jamais apoiará quem seja machista, misógino, racista, xenofóbico, homofóbico ou defensor de qualquer forma de violência contra mulheres e minorias. A declaração, longe de ser um manifesto partidário, foi uma reafirmação de dignidade: quem sobreviveu a uma tentativa de feminicídio não aceita aliança com discursos que naturalizam a agressão ou diminuem a condição feminina.

O caso expôs, com clareza cristalina, como setores do bolsonarismo reagem à crítica política feminina: reativando o trauma da vítima e transformando a agressão sofrida em “merecimento” por discordância ideológica. Frases como “agora se explica por que apanhou” ou “ela escolheu mal os homens e agora escolhe mal os líderes” circularam livremente, revelando que, para parte significativa desse grupo, a violência contra a mulher ainda pode ser relativizada quando a vítima ousa ter voz própria.

A revitimização de Juliana não é fato isolado, mas parte de um padrão recorrente em que mulheres que se posicionam publicamente contra o ex-presidente ou seus apoiadores são imediatamente sexualizadas, ridicularizadas ou ameaçadas com violência física. O que diferencia este episódio é a força da resposta: em vez de recuar, Juliana transformou o novo ataque em oportunidade para reafirmar que sobrevivência não significa gratidão ou silêncio, mas resistência ativa contra todo tipo de opressão.

A repercussão acabou por jogar luz sobre uma verdade incômoda: para alguns, a defesa intransigente da democracia e dos direitos das mulheres é interpretada como traição imperdoável, mais grave que o próprio ato de agredir uma mulher até quase matá-la. Enquanto o agressor de Juliana cumpre pena, parte da internet parece disposta a continuar a agressão por procuração, agora com o aval político-ideológico.

No fim, a história recente de Juliana Garcia resume o Brasil de 2025: um país em que sobreviver a 61 socos já não basta para garantir respeito; é preciso também sobreviver ao ódio organizado que se segue quando a vítima se recusa a ser reduzida a símbolo de sofrimento silencioso. Sua postura firme diante das câmeras é um lembrete poderoso de que o feminicídio não começa nem termina no ato físico: ele se prolonga sempre que uma mulher é punida por falar. E, enquanto houver mulheres como ela falando, haverá esperança de que esse ciclo seja, um dia, definitivamente interrompido.

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