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Nova derrota para o governo Lula na Câmara expõe racha entre Motta e o governo

O Projeto de Lei Antifacção, enviado com urgência pelo governo Lula no final de outubro de 2025, chegou à Câmara dos Deputados como uma resposta direta ao aumento da violência de facções criminosas no país. A proposta original buscava endurecer penas, criar mecanismos mais ágeis para o confisco de bens ilícitos e fortalecer a Polícia Federal com recursos diretos provenientes desses ativos. Parecia consenso: ninguém, em sã consciência, defenderia o crime organizado em público. No entanto, em menos de três semanas, o que era para ser uma vitória simbólica do governo se transformou em uma das maiores derrotas políticas do terceiro mandato.

A chave do desastre foi a escolha do relator, Guilherme Derrite, secretário de Segurança Pública de São Paulo e aliado de Tarcísio de Freitas, provável adversário de Lula em 2026. Derrite apresentou seis versões diferentes do relatório em tempo recorde, cada uma mais distante do texto original enviado pelo Palácio do Planalto. O substitutivo final, aprovado por 370 votos contra 110, retirou a prioridade de recursos para a Polícia Federal, desvinculou o confisco de bens da, e criou brechas jurídicas que, na prática, dificultam o combate ao chamado “andar de cima” das organizações criminosas. O governo, atônito, assistiu ao próprio projeto ser esvaziado na frente de seus olhos.

A base aliada tentou de tudo: pedidos de adiamento, tentativas de retorno ao texto original, destaques para recuperar trechos essenciais. Todos rejeitados. Deputados do PT, PSOL e até do próprio Republicanos, partido do presidente da Câmara, Hugo Motta, votaram contra o substitutivo, mas foram engolidos pela maioria formada pelo Centrão e pela oposição de direita. A sessão terminou com Gleisi Hoffmann chamando o texto de “lambança legislativa” e a Associação dos Delegados de Polícia Federal divulgando nota técnica alertando para um retrocesso histórico no combate ao crime organizado.

Hugo Motta, que havia prometido articulação madura e condução técnica, saiu do episódio com a imagem arranhada. Escolher Derrite como relator foi visto pelo Planalto como provocação deliberada. A reunião marcada entre o presidente da Câmara, a ministra das Relações Institucionais e o ministro da Justiça foi cancelada por Motta horas antes da votação, gesto interpretado como desrespeito institucional. Dentro do próprio Congresso, deputados experientes comentam que Motta quis mostrar força, mas acabou expondo fragilidade: perdeu o controle do ritmo e deixou que o tema da segurança pública, tão caro à sociedade, fosse usado como arma política contra o governo.

A derrota é dupla para Lula. Primeiro, porque o governo perde a narrativa de ser o único capaz de enfrentar o crime organizado com seriedade. Segundo, porque agora terá que gastar capital político no Senado para tentar recuperar o projeto ou, na pior das hipóteses, vetar trechos inteiros da própria proposta, o que será explorado como incoerência. A oposição já celebra: transformou uma medida de Estado em vitória partidária e ainda colocou o governo na defensiva.

No fundo, o episódio revela o velho problema brasileiro: a segurança pública continua sendo usada como moeda de troca eleitoral. Enquanto facções crescem, faturam bilhões e controlam territórios inteiros, o Congresso prefere disputar quem aparece mais “duro no combate ao crime” nas redes sociais. O texto que saiu da Câmara pode até conter algumas medidas positivas, mas está tão desfigurado que dificilmente produzirá o impacto prometido.

Resta ao governo correr atrás do prejuízo no Senado e torcer para que a população perceba quem, de fato, tentou construir uma política séria de enfrentamento às facções e quem preferiu jogar para a plateia. Por enquanto, o placar é claro: o crime organizado agradece a confusão, e a articulação política do Planalto leva mais uma pancada em um ano que já não tem sido fácil.

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