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Lula choca ao dizer que cuidar do clima é mais barato

Belém (PA) amanheceu tomada por delegações, ambientalistas e curiosos nesta segunda-feira (10), dia da abertura oficial da COP30 — a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que pela primeira vez acontece no coração da Amazônia. O clima era de expectativa, e o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acabou marcando o tom do evento: direto, político e cheio de recados ao mundo.

Lula começou sua fala ressaltando o simbolismo do local escolhido. “Realizar uma conferência como essa em Belém é uma proeza”, afirmou, elogiando o apoio do governador Helder Barbalho e da equipe da Casa Civil. Segundo o presidente, organizar um evento global desse porte na Amazônia é “tão desafiador quanto acabar com a poluição do planeta”.

Mas o ponto alto veio quando ele comparou os gastos com guerras aos investimentos necessários para salvar o meio ambiente. “Os homens que fazem guerra deveriam estar aqui”, disse Lula, em tom crítico. Ele destacou que, enquanto o mundo gastou cerca de US$ 2,7 trilhões em conflitos armados no ano passado, seriam necessários US$ 1,3 trilhão para enfrentar a crise climática. “Preservar o planeta é muito mais barato do que destruir vidas”, completou, arrancando aplausos da plateia.

A fala soou como um recado direto a potências como os Estados Unidos, que, curiosamente, não enviaram representantes de alto escalão ao evento. O contraste chamou atenção: líderes europeus e representantes de países africanos marcaram presença, enquanto Washington manteve um silêncio incômodo.

Durante o discurso, Lula também fez questão de lembrar que as mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça futura. “Não é mais um problema de amanhã. É uma tragédia de hoje”, alertou. Para ilustrar, citou exemplos recentes: o furacão que devastou partes do Caribe e o tornado que atingiu o Paraná, deixando um rastro de destruição. “O planeta está gritando, e fingir que não ouvimos é uma forma de cumplicidade”, afirmou.

O presidente aproveitou o palco internacional para criticar o negacionismo climático, que ainda encontra espaço em vários países — inclusive no Brasil. “Vivemos na era da desinformação. É hora de impor uma nova derrota aos negacionistas”, disse, num trecho que arrancou aplausos de cientistas e ativistas presentes.

Ele também reconheceu que, embora o mundo tenha avançado em políticas verdes, a velocidade das ações ainda é insuficiente. “Estamos na direção certa, mas na velocidade errada”, pontuou. O recado é claro: os compromissos assumidos em eventos como esse precisam sair do papel.

Lula encerrou o discurso com um apelo pela união entre nações, povos indígenas e comunidades locais. “A Amazônia é o pulmão do mundo, mas não podemos pedir que o povo que vive nela respire apenas promessas”, disse, em tom emocionado.

A COP30 em Belém, que vai reunir delegações de mais de 190 países até o fim da semana, já nasce com um marco histórico: é a

primeira vez que uma conferência climática da ONU acontece no coração da Amazônia — um dos biomas mais importantes e ameaçados do planeta.

Além das palavras, o evento traz um simbolismo forte. A escolha de Belém reforça a necessidade de olhar para a região não só como “patrimônio natural”, mas também como casa de milhões de brasileiros que convivem diariamente com os efeitos do desmatamento, das queimadas e da falta de políticas públicas.

Nas ruas, o clima é de esperança, mas também de cobrança. Ambientalistas querem que o governo brasileiro traduza o discurso em ações concretas: mais fiscalização, incentivo a energias limpas e apoio às comunidades tradicionais.

Lula, por sua vez, tenta equilibrar a imagem de líder ambiental com a de negociador político. Ao defender que investir no planeta é mais sensato do que financiar guerras, o presidente retoma uma pauta histórica de seu governo: o diálogo e a paz como ferramentas de desenvolvimento.

E, convenhamos, não deixa de haver um toque de ironia no cenário atual. Enquanto parte do mundo discute sanções e gastos militares, Belém se transforma no centro das atenções por propor o oposto — cooperação em vez de confronto.

A COP30 ainda está apenas começando, mas o discurso de abertura de Lula já deixa claro qual será o tom: um chamado à razão e à urgência. Se o mundo vai ouvir, ainda é cedo pra dizer. Mas, pelo menos desta vez, a Amazônia não é só tema de debate — é o palco.

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