Vítimas entre 14 e 55 anos: quem são os mortos na operação do Rio de Janeiro

A megaoperação das Forças de Segurança do Rio de Janeiro nos complexos da Penha e do Alemão segue repercutindo em todo o país. À medida que os nomes e detalhes dos mortos são revelados, o cenário que emerge é duro e complexo — e reflete, mais uma vez, o abismo social e a rotina de confrontos que marcam as comunidades cariocas. Segundo levantamento da Folha de S. Paulo, todos os civis mortos e já identificados são homens, com idade média de 28 anos. O mais jovem tinha apenas 14.
Os números por si só já chamam atenção. Dos mortos, quase metade — 49,5% — tinha algum tipo de mandado judicial em aberto. Entre os menores, havia ordens de busca e apreensão. Já nos outros casos, ou não havia mandado, ou as informações ainda não foram confirmadas. É um retrato que mistura juventude, criminalidade, pobreza e uma política de segurança que insiste em usar a força como principal resposta.
Um dos nomes mais citados é o de Francisco Myller Moreira da Cunha, o “Gringo”, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho (CV) no Amazonas. Ele havia completado 32 anos um dia antes da operação e tinha mandados por homicídio, tráfico e porte ilegal de arma. A morte dele foi comemorada por parte das autoridades, mas também levantou debates sobre a extensão da operação e o custo humano envolvido.
Outro caso é o de Yuri dos Santos Barreto, de 22 anos, cujo local de nascimento sequer foi registrado. Ele aparece em três ocorrências policiais — uma delas por posse de granadas de fabricação caseira. Já Ronaldo Julião da Silva, natural de Campina Grande (PB), chama atenção por outro motivo: completou 46 anos no mesmo dia da operação e, segundo os registros, não possuía antecedentes criminais. A inclusão de seu nome entre os mortos reacendeu a discussão sobre eventuais excessos e erros durante as ações policiais.
Entre os mais procurados estavam figuras conhecidas pelas forças de segurança, como Rafael Correa da Costa, o “Rafinha” ou “Irmãos Sorriso”, apontado como líder do CV em Abaetuba (PA) e com cinco mandados de prisão ativos. Também foi morto Victor Hugo Rangel de Oliveira, de 25 anos, natural de São Pedro da Aldeia (RJ), com quatro mandados em aberto e histórico de envolvimento no crime desde a adolescência. Nas redes sociais, ele aparecia ostentando dois fuzis — uma imagem que se tornou símbolo da ousadia e da sensação de impunidade que alimenta o tráfico.
Outro nome da lista é Vanderley Silva Borges, o “Cabeção” ou “Deley”, de Goiás, que também tinha quatro mandados por tráfico. Ele seria um dos responsáveis pela movimentação de armas e drogas entre estados, segundo a investigação.
Apesar do discurso oficial de que a operação buscava “reprimir facções e restaurar a ordem”, os números finais e os relatos de moradores apontam para uma tragédia com muitas perguntas ainda sem resposta. Famílias choram a perda de filhos e irmãos — alguns envolvidos com o crime, outros aparentemente pegos no fogo cruzado.
Enquanto o governo do estado defende a ação e destaca o número de mandados cumpridos, organizações de direitos humanos e especialistas em segurança pública voltam a questionar: até quando o combate ao crime será feito com mais mortes do que soluções?
O episódio escancara, de novo, uma velha ferida do Rio — onde a juventude pobre e periférica continua sendo a principal vítima de uma guerra que parece não ter fim.



