A vida de Elize Matsunaga após o crime que marcou o Brasil

Elize Matsunaga nasceu em Chopinzinho, no interior do Paraná, em uma família humilde e marcada por dificuldades. Desde cedo enfrentou abusos sexuais por parte de um parente próximo, o que a levou a fugir de casa ainda adolescente. Aos 17 anos, já em São Paulo, ingressou na prostituição de luxo, adotando o pseudônimo “Kelly” em sites de acompanhantes, onde conheceu Marcos Kitano Matsunaga, herdeiro da Yoki, em 2004. O relacionamento evoluiu rapidamente, culminando em casamento em 2009 e no nascimento de uma filha.
A vida de aparente luxo e estabilidade desmoronou em maio de 2012, quando, após uma discussão violenta no apartamento do casal na zona oeste de São Paulo, Elize atirou na cabeça do marido. Em seguida, esquartejou o corpo com uma serra elétrica, embrulhou as partes em sacos plásticos e as descartou em estradas próximas a Cotia. O crime chocou o país pela frieza e pela origem social do casal, transformando Elize em uma das figuras mais controversas da crônica policial brasileira.
Presenciada por câmeras de segurança carregando malas pesadas, Elize foi presa dias depois e confessou o homicídio. Durante o julgamento, em 2016, alegou legítima defesa e violência doméstica, mas foi condenada a 19 anos e 11 meses por homicídio qualificado e ocultação de cadáver. A sentença a colocou na Penitenciária Feminina de Tremembé, conhecida por abrigar outras condenadas famosas, onde passou quase uma década entre o regime fechado e o semiaberto.
Em maio de 2022, Elize progrediu para a liberdade condicional, com restrições como não sair de Franca sem autorização judicial e comparecer mensalmente ao fórum. Inicialmente, cadastrou-se como motorista de aplicativo sob o nome de solteira, Elize Araújo Giacomini, trabalhando principalmente com o TaxiMaxim. Sua avaliação era alta, com nota 4,8, e passageiros elogiavam sua pontualidade e simpatia, sem suspeitar de sua identidade.
A exposição midiática, intensificada pela série documental da Netflix em 2021 e pela nova produção “Tremembé” no Prime Video, fez com que Elize abandonasse o volante. Clientes começaram a reconhecê-la, e a pressão social a levou a interromper a atividade. Hoje, ela vive discretamente em Franca, onde mantém uma rotina caseira focada na costura de roupas e acessórios para pets, vendendo os produtos por redes sociais.
Aos 43 anos, Elize tenta reconstruir a vida longe dos holofotes, mas carrega o peso de um crime que a tornou sinônimo de tragédia e controvérsia. Sua filha, criada pela família paterna, mantém contato esporádico, e Elize evita entrevistas. O que resta é uma mulher que, entre agulhas e linhas, costura não apenas roupas para animais, mas uma existência silenciosa, sob o olhar atento da justiça e da memória coletiva.
Longe das ruas como motorista, Elize Matsunaga agora navega por um caminho mais quieto, onde o passado não a deixa esquecer, mas o presente, pelo menos, lhe permite trabalhar em paz dentro de casa.



