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Mensagens do CV são reveladas pela polícia

Mensagens extraídas de celulares apreendidos por autoridades do Rio de Janeiro escancaram o horror que imperava nas comunidades dominadas pelo Comando Vermelho (CV). Segundo o Ministério Público do Estado (MPRJ), os criminosos mantinham o que chamavam de “tribunais do tráfico” nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte da capital. Nesses “julgamentos”, moradores eram punidos com torturas e execuções por motivos banais — desde fofocas em bailes funk até suspeitas de traição.

As provas coletadas nessas investigações deram origem à megaoperação policial realizada na terça-feira (28), que terminou com 121 mortos, incluindo quatro policiais. O episódio, o mais letal da história do Rio, reacendeu o debate sobre a eficácia e a brutalidade das ações de segurança pública no estado.

As mensagens do horror

O material apreendido — mais de 5 GB de dados extraídos de celulares e “nuvens” de criminosos com autorização judicial — mostra como o CV controlava com mão de ferro o cotidiano das favelas.

Em uma das conversas, Carlos da Costa Neves, conhecido como Gardenal — e registrado nos contatos como “Deus” — reclama da perda de drogas e ordena a morte de um subordinado:

“O gerente nós vai mandar matar agora, na frente de geral.”

A naturalidade com que Gardenal decide sobre a vida de comparsas ilustra o poder quase religioso que exercia dentro da facção. Em outro trecho, o MP descreve fotos brutais: uma mulher, chamada de “briguenta que gosta de arrumar confusão no baile”, é forçada a entrar em um compartimento cheio de gelo; em outra imagem, um homem é espancado com pedaços de pau.

Os investigadores ainda obtiveram vídeos de tortura usados como “exemplo” para intimidar moradores. Em um deles, um homem aparece amarrado e amordaçado, sendo arrastado por um carro enquanto grita por perdão. O vídeo, segundo o MP, teria sido assistido ao vivo por Gardenal, identificado como o “telespectador” na tela.

Os chefes do terror

Os prints de conversas mostram que as decisões passavam por duas figuras centrais: Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, e Pedro Paulo Guedes, o “Pedro Bala”. Uma mensagem resume o poder que ambos detinham:

“Ninguém dá tiro sem ordem do Doca ou do Bala.”

De acordo com os promotores, os dois eram responsáveis por comandar a venda e o armazenamento de drogas, armas de grosso calibre e pela contabilidade do grupo no Complexo da Penha.

Outro nome que aparece com destaque nas investigações é Juan Breno Malta Ramos, o BMW, apontado como gerente do tráfico na Gardênia Azul, área tomada do controle da milícia. Ele faria parte do grupo Sombra, uma espécie de “tropa de elite” do CV, formada por matadores de aluguel responsáveis pela expansão territorial da facção na zona oeste.

Com o dinheiro do tráfico, BMW teria comprado armas pesadas e um sistema de câmeras de segurança no Complexo da Penha e na Gardênia, algumas com sensores de movimento — um aparato digno de bases militares.

A resposta do Estado

Após 75 dias de planejamento, a polícia reuniu 180 mandados de prisão e busca e apreensão, desencadeando a operação que chocou o país. O governador Cláudio Castro (PL) classificou o resultado como um “sucesso no combate ao narcoterrorismo”. Já a Defensoria Pública do Estado levantou suspeitas de ilegalidades e pediu apuração sobre as mortes.

Enquanto o debate sobre segurança pública se intensifica, o que fica evidente é a dimensão do poder do crime nas favelas cariocas — e o preço alto que o Rio de Janeiro continua pagando por décadas de abandono, medo e violência.

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