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Após operação no RJ que deixou mais de 60 mortos, Lula recebe grave acusação

O clima político entre o Palácio Guanabara e o Palácio do Planalto voltou a esquentar nesta terça-feira (28). O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), fez duras críticas ao governo federal após afirmar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se recusou a ceder apoio das Forças Armadas em operações de combate ao tráfico de drogas. Segundo o governador, pelo menos três pedidos oficiais de equipamentos e suporte militar foram negados pelo Planalto, o que forçou o Estado a deflagrar uma megaoperação com recursos próprios.

A ação, realizada nas primeiras horas da manhã, teve como foco os complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital. Cerca de 100 lideranças do Comando Vermelho (CV) eram os principais alvos. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, a operação já resultou em mais de 50 prisões e apreensão de armamentos de grosso calibre, além de drogas e veículos roubados. O cerco envolveu centenas de agentes das polícias Civil e Militar, com apoio de helicópteros e blindados estaduais.

Durante entrevista coletiva concedida no fim da tarde, Castro afirmou que o governo federal tem sido “omisso” diante da escalada da violência nas comunidades cariocas. “Não foram pedidas desta vez [as Forças Armadas] porque já tivemos três negativas. Já entendemos a política de não ceder. Cada dia temos uma nova razão, pra não ser mal-educado, para não emprestar e para não colaborar”, declarou o governador, em tom de desabafo. Ele reforçou que o Estado “não pode ficar chorando pelos cantos” e que seguirá atuando com seus próprios meios, “mesmo que sem apoio de Brasília”.

De acordo com o governador, em solicitações anteriores, o Rio pediu o empréstimo de blindados e outros equipamentos militares essenciais para garantir a segurança dos agentes durante as incursões nas favelas. O Ministério da Defesa, no entanto, teria alegado que o uso das Forças Armadas só seria possível mediante decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) — uma medida que autoriza a atuação militar em situações específicas de grave perturbação da ordem pública. Castro, porém, argumenta que o Rio precisa de colaboração técnica e logística, e não necessariamente de tropas federais nas ruas.

A relação entre o governo Lula e o Executivo fluminense já vinha apresentando sinais de desgaste desde o início do ano, especialmente após divergências sobre segurança pública e política de enfrentamento ao crime organizado. O Planalto tem adotado um discurso de que o combate à criminalidade deve ser conduzido pelos estados, enquanto o governo federal atua em frentes de inteligência, prevenção e integração entre os entes federativos. Já Castro, por outro lado, defende que o Rio enfrenta uma situação “fora do comum”, com facções controlando territórios inteiros e ameaçando agentes públicos, o que justificaria um apoio emergencial.

Analistas políticos avaliam que o embate entre Castro e Lula vai além da segurança pública. O governador, aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem se posicionado como um dos principais nomes da oposição ao governo federal na Região Sudeste. As críticas recentes podem ser interpretadas também como um movimento político para fortalecer sua base e dialogar com o eleitorado mais conservador do Estado, sobretudo diante das eleições municipais de 2024 e do cenário nacional polarizado.

Enquanto isso, a população do Rio de Janeiro continua convivendo com o medo e a insegurança. Nos complexos da Penha e do Alemão, o clima nesta terça-feira era de tensão e desconfiança. Moradores relataram intensos tiroteios, escolas fechadas e interrupção de serviços públicos. Para eles, a guerra entre traficantes e forças de segurança se repete há anos, e a ausência de políticas efetivas de segurança e inclusão social perpetua um ciclo de violência. “A gente só quer paz. Não importa se é o governo do Estado ou o federal, o que queremos é poder sair de casa sem medo”, disse uma moradora, que preferiu não se identificar.

A operação desta semana reacende o debate sobre o papel da União no apoio aos estados em situações de crise e expõe mais uma vez as fragilidades da política de segurança pública no país. Enquanto os governos trocam acusações, o crime organizado segue se fortalecendo nas comunidades, e o Rio de Janeiro, como disse o próprio governador, continua “sozinho nessa guerra” — uma guerra que, para os moradores das favelas, parece não ter fim.

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