Eleito deputado federal, Jeffrey Chiquini já defendeu Alef Manga

Jeffrey Chiquini, advogado curitibano eleito no último domingo (5) como o deputado federal mais votado da história do Paraná, com mais de 424 mil votos, já havia construído uma trajetória de forte exposição pública antes de entrar oficialmente para a política. Ligado ao partido Novo, ele ganhou notoriedade também no futebol, especialmente por sua atuação em um dos casos mais comentados dos últimos anos envolvendo o Coritiba. Entre 2023 e 2024, Chiquini esteve diretamente envolvido na defesa do atacante Alef Manga, que na época defendia o clube e foi investigado no âmbito da Operação Penalidade Máxima, que apurou um esquema de manipulação de resultados relacionado a apostadores. A participação do advogado no caso ultrapassou os limites dos tribunais esportivos e chegou às redes sociais, onde ele passou a se posicionar publicamente sobre o futuro do jogador e sobre decisões tomadas pela diretoria alviverde. A atuação colocou Chiquini no centro de uma discussão que envolveu defesa jurídica, interesses do clube e pressão da torcida.
A investigação da Operação Penalidade Máxima resultou em uma punição de 360 dias para Alef Manga pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). O atacante confessou ter recebido R$ 45 mil para receber um cartão amarelo na partida contra o América-MG, pela 25ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2022. Chiquini participou da defesa do jogador desde o início da denúncia, mas posteriormente deixou o caso alegando “motivo de foro íntimo e escusa de consciência”. Naquele momento, o Coritiba, comandado pelo CEO Carlos Amodeo e pelo executivo de futebol Artur Moraes, decidiu emprestar Manga ao Pafos, do Chipre. A punição aplicada ao atleta também foi ampliada para o âmbito internacional pela Fifa em 31 de outubro de 2023. O episódio, que já havia provocado grande repercussão no futebol brasileiro, ganhou novos capítulos meses depois, quando o advogado decidiu voltar a atuar na defesa do atacante.
A retomada aconteceu em junho de 2024 e rapidamente levou Chiquini a adotar uma postura mais pública em relação à situação de Manga no Coritiba. Poucos dias depois de reassumir a defesa do jogador, o advogado utilizou suas redes sociais para questionar diretamente a postura do diretor executivo William Thomas. Em uma publicação feita em 27 de junho, afirmou: “A nação coxa-branca precisa saber da verdade: William Thomas não quer Alef Manga no Coritiba! No dia a dia no CT, o diretor executivo de futebol sequer olha e cumprimenta o jogador e, pelas costas da torcida, já está oferecendo o atleta no mercado”. Na mesma publicação, Chiquini se apresentou como alguém ligado à torcida e declarou: “Eu sou torcida! Respeitem meu Coritiba!”, além de afirmar que não tinha “rabo preso com a diretoria”. A manifestação provocou uma resposta no próprio dia, desta vez do diretor técnico Paulo Autuori, que contestou as declarações e defendeu a decisão do clube de não trabalhar com o retorno imediato do atacante.
Paulo Autuori respondeu por meio de um vídeo e criticou a postura adotada pelo advogado, mencionando inclusive o fato de Chiquini ter deixado a defesa de Manga anteriormente. “Refuto uma postagem do advogado do senhor Alef Manga, que em maio do ano passado renunciou o caso por conta da obscuridade envolvida, e que, nesse momento, parece jogar todo o trabalho contra o torcedor do Coxa, especialmente um profissional do nível do senhor William Thomas”, afirmou. Nos meses seguintes, Chiquini continuou utilizando as redes sociais para defender a interpretação de que a punição de Manga teria terminado em 25 de julho. A questão provocou divergências dentro do próprio Coritiba. Carlos Amodeo defendia o retorno do atacante, enquanto os advogados do clube adotavam uma posição mais cautelosa. Autuori e William Thomas também defendiam a negociação do jogador. O cenário acabou contribuindo para mudanças no comando do clube, com a saída de Amodeo, seguida posteriormente pela saída de Autuori. A nova administração, liderada por Gabriel Lima, optou pela orientação jurídica mais cautelosa.
O entendimento adotado pela nova gestão acabou prevalecendo quando o STJD voltou a analisar a situação de Manga no fim de agosto de 2024. Na ocasião, o tribunal deixou claro que o atacante somente poderia retornar aos jogos em 26 de setembro. A definição tinha grande importância para o Coritiba, já que a escalação do jogador antes da data autorizada poderia resultar na perda de três pontos por partida. Na prática, uma interpretação equivocada sobre a punição poderia trazer consequências esportivas relevantes para o clube. Depois da decisão, a relação entre Chiquini e Manga também chegou ao fim. Em 28 de agosto de 2024, o atacante anunciou que não trabalharia mais com o advogado e explicou que tomou a decisão devido ao seu descontentamento com a condução do processo. “Essa decisão foi motivada pelo meu descontentamento com a condução do caso ao longo do tempo, sem que o principal objetivo, a conversão da pena, fosse alcançado”, escreveu Manga. Chiquini respondeu em tom de despedida: “Cumpri meu ofício com muita dedicação. Como ensinou o professor Evandro Lins e Silva, ‘das defesas não me arrependo de nenhuma’. Desejo sorte ao jovem Alef Manga.” Meses depois, em novembro, o atacante deixou o Coritiba ao fim do contrato.
A relação de Chiquini com o universo alviverde, porém, não ficou restrita ao caso envolvendo Alef Manga. Em fevereiro de 2024, o advogado também passou a atuar em uma questão envolvendo a torcida organizada Império Alviverde. Naquele período, uma decisão judicial obtida em ação do Ministério Público do Paraná impediu integrantes da Império Alviverde e da Dragões Alviverdes de frequentarem o Couto Pereira. Chiquini representou a Império e apresentou recurso com o objetivo de derrubar a decisão liminar. Dessa forma, antes de conquistar projeção eleitoral e alcançar a marca histórica de mais de 424 mil votos para deputado federal, o advogado já havia construído uma presença significativa no ambiente político e esportivo de Curitiba, especialmente entre setores ligados ao Coritiba. Sua trajetória mostra como a atuação jurídica, as manifestações públicas e a relação com assuntos do futebol ajudaram a colocá-lo em evidência antes de sua chegada à política institucional. Agora, eleito com uma votação histórica no Paraná, Chiquini inicia uma nova etapa de sua carreira, levando consigo uma trajetória que já havia despertado atenção muito antes da eleição.



