O câncer de pulmão está aumentando em pessoas que nunca fumaram, e a ciência investiga uma possível explicação

Durante muito tempo, o câncer de pulmão foi associado principalmente ao consumo de cigarros. Embora o tabagismo continue sendo o principal fator de risco para a doença, pesquisas científicas vêm chamando a atenção para outro grupo de pacientes: pessoas que nunca fumaram. A descoberta tem despertado preocupação entre especialistas e reforçado a necessidade de compreender melhor como fatores ambientais, alterações genéticas e exposições presentes no cotidiano podem contribuir para o desenvolvimento desse tipo de câncer. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), aproximadamente 10% a 20% dos casos de câncer de pulmão naquele país ocorrem em pessoas que nunca fumaram ou que fumaram menos de cem cigarros ao longo da vida.
Uma das explicações investigadas pelos pesquisadores é a poluição do ar. Partículas microscópicas liberadas por veículos, indústrias e outras fontes de combustão podem penetrar profundamente nos pulmões e provocar danos às células. Com o passar do tempo, determinadas alterações celulares podem favorecer o surgimento de tumores. Em julho de 2025, pesquisadores ligados aos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos divulgaram resultados que associaram a exposição à poluição por partículas finas a um aumento de alterações genéticas em tumores pulmonares de pessoas que nunca fumaram. O estudo ampliou o conhecimento sobre possíveis mecanismos envolvidos na doença, embora não signifique que toda pessoa exposta à poluição desenvolverá câncer.
A poluição atmosférica também aparece em pesquisas internacionais sobre o crescimento de determinados tipos de câncer pulmonar. Em fevereiro de 2025, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde, divulgou uma análise sobre a incidência dos diferentes subtipos da doença. O trabalho destacou a importância do adenocarcinoma, um tipo de câncer de pulmão que também pode ocorrer em pessoas que nunca fumaram, e apontou associações entre a poluição do ar e tendências observadas nesse subtipo. Os pesquisadores continuam investigando as diferenças entre regiões, populações e exposições ambientais para compreender melhor essas mudanças.
Outro fator importante é o chamado fumo passivo. Mesmo quem nunca acendeu um cigarro pode inalar substâncias cancerígenas presentes na fumaça produzida por outras pessoas. Essa exposição pode acontecer dentro de casa, em ambientes de trabalho ou em outros locais onde o tabaco é consumido. A Sociedade Americana de Câncer destaca que respirar fumaça de terceiros aumenta o risco de câncer de pulmão, mesmo entre pessoas que nunca fumaram. Por isso, manter ambientes livres de fumaça é uma medida importante de proteção para familiares, colegas e demais pessoas que compartilham esses espaços.
Existe ainda um agente menos conhecido pela população: o radônio. Trata-se de um gás radioativo de origem natural, formado durante a decomposição de elementos presentes no solo e nas rochas. Ele não tem cheiro, cor ou sabor, o que dificulta sua identificação sem equipamentos específicos. Em determinadas condições, o gás pode se acumular no interior de residências e edifícios, aumentando a exposição de quem passa muito tempo nesses ambientes. A Organização Mundial da Saúde reconhece o radônio como uma das principais causas de câncer de pulmão e destaca que sua concentração pode ser medida para orientar medidas de redução da exposição.
As condições presentes no ambiente de trabalho também merecem atenção. Pessoas que passam anos expostas ao amianto, à sílica, à fumaça de motores a diesel ou a determinados produtos químicos podem apresentar maior risco de desenvolver a doença. A intensidade e a duração da exposição, além das características individuais, influenciam esse risco. Por essa razão, medidas de segurança ocupacional, ventilação adequada e equipamentos de proteção apropriados são importantes para reduzir o contato com substâncias potencialmente cancerígenas. A Organização Mundial da Saúde inclui exposições ocupacionais entre os fatores relevantes na prevenção do câncer de pulmão.
A genética também pode ajudar a explicar por que algumas pessoas desenvolvem câncer de pulmão sem histórico de tabagismo. Alterações no DNA podem surgir ao longo da vida ou estar relacionadas à predisposição familiar. Em determinados tumores de pessoas que nunca fumaram, os médicos identificam alterações moleculares que ajudam a explicar o crescimento das células cancerígenas e podem orientar a escolha do tratamento. Isso não significa, entretanto, que o câncer seja necessariamente hereditário ou que uma pessoa com histórico familiar desenvolverá a doença. Cada caso depende de uma combinação de fatores que nem sempre pode ser completamente identificada.
Um dos maiores desafios é que muitas pessoas ainda acreditam que não precisam se preocupar com câncer de pulmão porque nunca fumaram. Essa percepção pode contribuir para que sintomas persistentes sejam ignorados ou atribuídos a problemas menos graves. Tosse que não melhora, presença de sangue no escarro, falta de ar persistente, dor no peito sem explicação e perda de peso involuntária merecem avaliação médica. Esses sinais não significam necessariamente câncer, pois também podem ocorrer em outras condições, mas precisam ser investigados quando persistem ou pioram. A avaliação profissional é especialmente importante para determinar quais exames são necessários em cada situação.
Apesar das descobertas, é importante interpretar corretamente os dados científicos. O fato de o câncer de pulmão estar sendo observado com maior atenção entre pessoas que nunca fumaram não significa que todos os casos estejam aumentando na mesma proporção em todos os países. As tendências variam conforme a população, o subtipo do tumor, a idade, a exposição ambiental e os métodos utilizados para registrar os diagnósticos. Além disso, identificar uma associação entre um fator ambiental e a doença não significa que esse fator seja a única causa de cada caso. Os estudos continuam sendo fundamentais para separar as influências ambientais, genéticas e outras condições envolvidas.
A prevenção continua sendo uma parte essencial do combate à doença. Não fumar e evitar a exposição à fumaça de terceiros são medidas importantes. Também vale reduzir, sempre que possível, a exposição à poluição e a substâncias cancerígenas no trabalho, além de verificar se há necessidade de avaliação do radônio em locais onde esse risco é relevante. Pessoas com fatores de risco específicos podem conversar com um profissional de saúde sobre a necessidade de acompanhamento. Exames de rastreamento não são indicados indiscriminadamente para todas as pessoas que nunca fumaram; a decisão depende das recomendações médicas e do perfil individual de risco. O avanço das pesquisas está ajudando a esclarecer por que o câncer de pulmão também afeta pessoas que nunca tiveram contato direto com o cigarro. A poluição atmosférica, o fumo passivo, o radônio, as exposições ocupacionais e as alterações genéticas são elementos importantes nessa investigação. Embora ainda existam perguntas sem respostas definitivas, o conhecimento desses fatores permite ampliar as estratégias de prevenção, melhorar a atenção aos sintomas e desenvolver tratamentos mais direcionados. A principal mensagem dos especialistas é que o histórico de tabagismo não deve ser o único aspecto considerado quando se fala sobre saúde pulmonar.



