“Chute na santa”: o caso do pastor que marcou o Brasil em 1995

Poucos episódios envolvendo religião e televisão ficaram tão conhecidos no Brasil quanto o chamado “chute na santa”. O caso aconteceu em 12 de outubro de 1995, justamente no feriado dedicado a Nossa Senhora Aparecida, e rapidamente ganhou espaço no noticiário nacional.
Na época, o pastor Sérgio Von Helder, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, apresentava o programa O Despertar da Fé, exibido pela TV Record. Durante a transmissão, ele fez críticas ao culto católico e questionou a importância atribuída à imagem de Nossa Senhora Aparecida.
O que começou como uma manifestação de opinião acabou tomando uma proporção muito maior. Ao lado de uma imagem da santa, o religioso realizou gestos com os pés e as mãos que foram interpretados como uma afronta à fé católica. As imagens foram posteriormente reprisadas por diferentes veículos de comunicação e o episódio passou a ser conhecido popularmente como “chute na santa”. O momento escolhido para a transmissão teve um peso especial. O dia 12 de outubro é tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora Aparecida, considerada padroeira do Brasil e uma das figuras religiosas mais conhecidas do país.
Naquele período, a televisão tinha uma influência ainda maior no cotidiano dos brasileiros. As redes sociais ainda não existiam como ferramenta de comunicação em massa, e uma cena exibida na televisão poderia rapidamente chegar às manchetes dos jornais e aos principais programas de notícias. Foi exatamente o que aconteceu.
A repercussão ultrapassou o debate entre diferentes correntes cristãs. O episódio provocou manifestações de católicos em várias cidades e estimulou discussões sobre liberdade religiosa, respeito às crenças e os limites das manifestações públicas.
Dias depois, missas de desagravo foram realizadas em diferentes regiões. Em Campinas, por exemplo, uma celebração chegou a reunir milhares de pessoas, enquanto outras manifestações ocorreram em Recife e no interior de São Paulo.
A repercussão também levou a Igreja Universal do Reino de Deus a se posicionar. Anos depois, Edir Macedo reconheceu publicamente que o episódio havia sido um erro e afirmou que a atitude não representava a forma como a instituição deveria tratar outras religiões.
A situação envolvendo Von Helder também teve consequências jurídicas. Em 1997, ele foi condenado a dois anos e dois meses de prisão por discriminação religiosa e vilipêndio de imagem religiosa, segundo registros publicados pela imprensa da época. A pena, porém, não chegou a ser cumprida em regime de prisão.
O religioso posteriormente deixou a Igreja Universal e passou a atuar nos Estados Unidos. Com o passar dos anos, sua participação naquele episódio continuou sendo lembrada sempre que o país voltou a discutir intolerância religiosa. O “chute na santa” aconteceu há mais de três décadas, mas continua sendo citado em discussões sobre religião no Brasil.
Um dos motivos é a dimensão simbólica de Nossa Senhora Aparecida para milhões de brasileiros. Para os católicos, a imagem representa uma devoção que atravessa gerações. Já para algumas denominações protestantes, a utilização de imagens religiosas não faz parte da prática de fé.
Essas diferenças doutrinárias existem há muito tempo. O episódio de 1995, entretanto, mostrou como uma manifestação religiosa feita diante das câmeras poderia alcançar uma repercussão nacional. Naquele momento, o debate também chamou atenção para uma questão que continua atual: a convivência entre pessoas de diferentes religiões. Com o passar dos anos, o caso deixou de ser apenas uma notícia de 1995 e passou a fazer parte da memória da televisão brasileira.



