Antonio Fagundes comenta as criticas que ouviu por causa de personagem

Antonio Fagundes, aos 77 anos, revisitou um dos personagens mais marcantes de sua trajetória durante uma participação no “Caldeirão com Mion”, exibido neste sábado (26). Convidado para celebrar seus 60 anos de carreira, o ator falou sobre diferentes momentos de uma trajetória que reúne cerca de 120 personagens, 60 peças teatrais e 50 filmes. Entre as lembranças apresentadas por Marcos Mion, ganhou destaque Bruno Mezenga, protagonista de “O Rei do Gado”, novela escrita por Benedito Ruy Barbosa. O papel se tornou uma das grandes referências da carreira de Fagundes e também ficou marcado por uma escolha artística que, inicialmente, provocou muitas críticas do público. Décadas depois, o ator explicou como construiu a maneira de falar do personagem e revelou que decidiu manter a proposta mesmo diante das reclamações.
Na trama, Fagundes interpretou dois personagens em diferentes momentos da história: Antônio, na primeira fase, e Bruno Mezenga, na segunda. A passagem entre as duas etapas da novela exigiu uma transformação significativa do ator, já que os personagens estavam separados por um intervalo de tempo dentro da narrativa. Fagundes contou que teve apenas uma semana entre as gravações das duas fases para preparar a mudança. Por isso, começou a trabalhar antecipadamente na caracterização e decidiu envelhecer Antônio para que a transformação posterior fosse mais perceptível. No entanto, segundo o próprio ator, a principal preocupação não estava apenas na aparência. A forma de falar de Bruno Mezenga se tornou um elemento fundamental para a construção do personagem e exigiu um trabalho específico de preparação.
A escolha da prosódia de Bruno Mezenga, porém, não agradou imediatamente ao público. Fagundes revelou que recebeu muitas críticas por causa da maneira como pronunciava as falas do personagem. A repercussão chegou a ser tão grande que algumas pessoas diziam que o ator parecia estar com “um ovo na boca”, comentário que ele próprio relembrou com bom humor durante o programa. Na época, a característica adotada para o personagem era bastante comentada e chegou a gerar pedidos para que o ator modificasse sua interpretação. Mesmo diante da reação negativa, Fagundes decidiu continuar seguindo o caminho que havia escolhido para Bruno. Para ele, alterar aquela característica poderia comprometer a identidade construída para o personagem ao longo da novela.
O ator explicou que as críticas não fizeram com que ele abandonasse a proposta. Segundo Fagundes, embora a repercussão tenha afetado a equipe e outras pessoas envolvidas na produção, ele permaneceu convicto de que deveria manter a maneira de falar criada para Bruno Mezenga. “Não afetou a mim, mas afetou todo mundo”, relembrou. Ele contou ainda que chegou a ser chamado para retirar o sotaque, mas recusou a possibilidade porque considerava aquele elemento essencial para a composição do personagem. A decisão foi mantida até o fim da novela, mesmo com as opiniões contrárias que surgiram inicialmente. Com o passar do tempo, justamente aquela característica que havia provocado reclamações acabou sendo incorporada à memória afetiva do público e se transformou em uma das marcas mais reconhecidas do personagem.
Durante a conversa com Marcos Mion, Fagundes avaliou que a escolha acabou fazendo sentido para a trajetória de Bruno Mezenga. O ator destacou que, atualmente, a maneira de falar utilizada na novela é imediatamente associada ao personagem e faz parte da lembrança que o público guarda de “O Rei do Gado”. A produção continuou sendo exibida e revisitada ao longo dos anos, mantendo Bruno Mezenga entre os papéis mais conhecidos da carreira do artista. A experiência também mostra uma particularidade do trabalho de Fagundes: a disposição para sustentar uma escolha de interpretação quando acredita que ela contribui para contar a história. Mesmo quando a reação inicial não corresponde às expectativas, o ator prefere preservar aquilo que considera importante para a construção de seus personagens.
A participação no “Caldeirão com Mion” serviu, assim, para recuperar uma história que acompanha um dos períodos mais conhecidos da carreira de Antonio Fagundes. Ao celebrar seis décadas de atuação, o programa relembrou não apenas a dimensão de sua trajetória, mas também os desafios enfrentados na criação de personagens que permaneceram na memória do público. Bruno Mezenga é um exemplo dessa relação entre preparação, escolhas artísticas e repercussão popular. A característica vocal que inicialmente gerou comentários e pedidos de mudança acabou se tornando parte inseparável do personagem. Ao recordar o episódio tantos anos depois, Fagundes demonstrou que manteve sua decisão até o final e considera que ela contribuiu para a permanência de Bruno Mezenga entre seus trabalhos mais lembrados.



