Morre a jornalista política Sônia Carneiro aos 74 anos

A jornalista Sônia Carneiro morreu neste domingo (20), aos 74 anos, após um mal súbito enquanto dormia em casa, segundo informou o filho, Terence Zveiter. Conhecida pela atuação na cobertura política em Brasília, Sônia acompanhou alguns dos principais momentos da história recente do país, especialmente o processo de redemocratização e os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, que resultaram na Constituição de 1988. Ao longo de décadas de carreira, a profissional esteve nos corredores do Congresso Nacional em períodos decisivos e se tornou uma das mulheres pioneiras na cobertura diária dos centros de poder.
Natural do Rio de Janeiro, Sônia, chamada de Soninha por pessoas próximas, iniciou a carreira na Rádio Jornal do Brasil, em 1971. Foi em Brasília, porém, que consolidou sua trajetória profissional. Na década de 1980, já tinha experiência na Câmara dos Deputados e no Senado quando os parlamentares começaram a elaborar a nova Constituição. Em depoimento à série “Testemunha da História”, da TV Senado, a jornalista contou que a cobertura da Constituinte exigia uma rotina intensa, com profissionais trabalhando durante dias e noites para acompanhar as discussões e as votações. Ela também destacou o período de liberdade de imprensa que acompanhou a redemocratização, quando os jornalistas passaram a fazer perguntas mais abertas aos políticos.
Durante a cobertura, Sônia acompanhou de perto personagens importantes da política brasileira, entre eles Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte. A proximidade dos jornalistas com o plenário permitia acompanhar diretamente as negociações e os debates que definiriam o texto constitucional. A repórter também ficou conhecida pelas perguntas diretas e pela capacidade de conseguir declarações de políticos. Segundo o jornalista Jorge Bastos Moreno, Sônia tinha uma postura destemida e irreverente diante das autoridades. Entre os episódios marcantes está uma pergunta feita ao então presidente João Figueiredo, que respondeu publicamente sobre a inexistência de prévias no PDS durante as articulações para a sucessão presidencial. Tancredo Neves, por sua vez, costumava chamá-la de “sobrinha”, apesar de não existir parentesco entre os dois.
Para Sônia, o trabalho da imprensa durante a Constituinte tinha uma importância que ia além do acompanhamento dos debates no Congresso. A jornalista entendia que os meios de comunicação ajudaram a aproximar a população das discussões que resultariam na nova Constituição. Segundo ela, inicialmente a sociedade ainda não tinha dimensão do que acontecia no Congresso, mas a cobertura de jornais, rádios e televisões contribuiu para ampliar o interesse e a participação popular. O período foi marcado pela presença de diferentes setores da sociedade no Parlamento, interessados em apresentar reivindicações e influenciar a elaboração do novo texto constitucional.
A vida profissional de Sônia também esteve profundamente ligada à rotina familiar. No dia da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, ela levou o filho mais novo, Daniel, ao Congresso para acompanhar a sessão histórica. Inicialmente impedido de entrar pela segurança, o menino conseguiu acesso após a jornalista pedir ajuda ao deputado Inocêncio Oliveira e assistiu à promulgação ao lado da mãe, na bancada da Rádio Jornal do Brasil. Segundo Terence, a mãe conciliava a criação dos filhos com uma profissão que exigia longos períodos fora de casa. A carreira ainda incluiu a cobertura das Diretas Já, da retomada das eleições presidenciais e do impeachment de Fernando Collor. Sônia também exerceu funções de chefia na Rádio Jornal do Brasil e trabalhou como repórter especial do Jornal do Brasil.
Ao longo da carreira, Sônia recebeu homenagens por sua atuação profissional. Em 2013, foi uma das jornalistas reconhecidas pela Câmara dos Deputados com a Medalha Assembleia Nacional Constituinte, criada pelos 25 anos da Constituição. Depois de deixar as redações, trabalhou na comunicação institucional, passando pelo Ministério do Trabalho, pela representação do governo da Bahia em Brasília e pelo Ministério da Defesa, além de integrar a assessoria do senador Jaques Wagner. Para o filho Terence, entretanto, o legado da jornalista vai além de sua trajetória profissional. Ele destacou a perseverança, a força e os valores da mãe, que, segundo ele, nunca abriu mão de seus princípios. A família ainda não havia divulgado, até a publicação da matéria, informações sobre o velório.



