Mensagens de Vorcaro indicam prioridade para voo reservado a escritório de Viviane Barci

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, trouxeram um novo elemento para a discussão sobre viagens realizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e por sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes. Os diálogos, registrados em 21 de agosto de 2025, mostram Vorcaro solicitando uma aeronave para um deslocamento entre Brasília e Roraima. Uma interlocutora identificada no material como “Thatiane Prime”, possivelmente ligada à Prime Aviation, respondeu que poderia disponibilizar o jato de prefixo PP-NLR, mas informou que a mesma aeronave tinha um compromisso previamente marcado para o dia seguinte relacionado a “Barci”. A funcionária chegou a sugerir a transferência desse compromisso para outro avião. Vorcaro, porém, respondeu que o atendimento já programado deveria ser mantido e que buscaria outra alternativa para sua própria viagem. No dia seguinte, 22 de agosto, Alexandre de Moraes e Viviane foram filmados desembarcando justamente do PP-NLR no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Os registros fazem parte do material da Petição 16662, originada de relatório da PF produzido a partir de informações recuperadas do aparelho de Vorcaro.
O conteúdo da conversa permite afirmar que Vorcaro foi informado de que o PP-NLR estava reservado para um compromisso associado a “Barci” e optou por não alterar a programação. Isso, entretanto, não permite concluir isoladamente qual era a natureza comercial do voo, quem havia contratado especificamente aquela aeronave ou se houve algum tipo de tratamento fora das condições previstas entre as empresas envolvidas. A expressão utilizada por alguns veículos de que Vorcaro teria “aberto mão” do avião resume a sequência das mensagens, mas não deve ser interpretada automaticamente como prova de favorecimento pessoal. Em outra conversa registrada no relatório, desta vez com um contato identificado como “Marcos Prime”, aparecem referências ao uso de aviões e helicópteros e orientações atribuídas a Vorcaro para que determinados serviços continuassem disponíveis. O contexto dessas mensagens ainda é objeto de interpretações distintas e integra um conjunto muito maior de dados extraídos do celular do ex-banqueiro. O próprio STF informa oficialmente que a Petição 16662 decorre de um relatório policial com supostos diálogos relacionados a Moraes e que o mérito dessas informações ainda não foi julgado pelo plenário da Corte.
A repercussão aumentou porque o vídeo do desembarque e as mensagens surgiram depois de declarações anteriores sobre o uso de aeronaves relacionadas ao empresário. Reportagens publicadas em abril apontaram que Moraes teria realizado diferentes deslocamentos em aviões operados pela Prime Aviation, companhia da qual Vorcaro participava indiretamente por meio de estrutura empresarial ligada ao fundo Patrimonial Blue. Naquela ocasião, o gabinete do ministro contestou a associação entre as viagens e o empresário e afirmou que Moraes jamais havia viajado em avião de Daniel Vorcaro ou acompanhado por ele. Já o escritório Barci de Moraes explicou que contrata regularmente empresas de táxi aéreo, incluindo a Prime Aviation, e declarou que a escolha das aeronaves é uma decisão operacional das companhias contratadas. A banca também afirmou que Vorcaro e Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro, não estiveram presentes nos voos realizados por integrantes do escritório. As novas mensagens não demonstram que Vorcaro estivesse dentro da aeronave utilizada em 22 de agosto de 2025, mas mostram que ele tinha conhecimento da reserva e foi consultado quando surgiu a possibilidade de alterar a programação daquele avião.
A utilização das aeronaves passou a receber atenção adicional por causa das relações comerciais existentes entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de Viviane Barci. Documentos divulgados durante as investigações mostram que a banca havia firmado um contrato com o Banco Master que previa pagamentos de aproximadamente R$ 131 milhões ao longo de três anos. Dados posteriormente divulgados pela Receita Federal indicaram que cerca de R$ 80,2 milhões foram declarados como repasses do banco ao escritório antes da interrupção dos pagamentos. Um segundo documento encontrado nas apurações previa uma contratação de até R$ 50 milhões com a Viking Participações, empresa representada por Vorcaro, e mencionava a possibilidade de parte do valor ser quitada por meio de participações em empresas relacionadas a um avião Legacy 650 e a um helicóptero. Alexandre de Moraes afirmou em manifestação ao Supremo que jamais atuou para favorecer Vorcaro ou o Banco Master e contestou aspectos das informações relacionadas a esse segundo contrato. Portanto, a existência dos documentos e das mensagens constitui material sob análise das autoridades e não equivale, por si só, a uma conclusão de que tenha ocorrido alguma irregularidade por parte do ministro ou de sua esposa.
O caso está inserido em uma investigação mais ampla que já provocou discussões dentro do próprio Supremo. O relatório da Polícia Federal com informações extraídas do celular de Vorcaro chegou à Corte e deu origem à Petição 16662. O presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a relatoria do procedimento e convocou sessão extraordinária para que o plenário analisasse questões relacionadas ao processo. Em 15 de setembro, os ministros começaram a discutir uma questão de ordem envolvendo a possibilidade de julgamento conjunto da Petição 16662 com outro procedimento, mas a análise foi interrompida por pedido de vista do ministro Flávio Dino. Segundo informação oficial divulgada pelo próprio Supremo, o colegiado ainda não examinou o mérito das alegações existentes no relatório. Moraes também apresentou defesa escrita na qual rejeitou as suspeitas de favorecimento e questionou a legalidade e a interpretação de partes do material produzido pela PF. O STF disponibilizou posteriormente diversos documentos de processos relacionados ao caso Master que tiveram o sigilo retirado, permitindo que peças das investigações fossem consultadas publicamente.
As mensagens agora divulgadas acrescentam, portanto, uma informação objetiva ao conjunto já conhecido: na véspera do voo registrado em vídeo, Vorcaro foi informado de que o PP-NLR estava reservado para um compromisso identificado como sendo de “Barci” e decidiu manter aquela programação, afirmando que buscaria outra forma de realizar seu próprio deslocamento. O que esses registros significam juridicamente dependerá da análise do material completo e de sua relação com contratos, pagamentos, registros de voo e demais elementos reunidos pela Polícia Federal. O escritório de Viviane sustenta que utilizava a Prime Aviation como prestadora regular de serviços de táxi aéreo e que a contratação não representava relação pessoal com proprietários ou operadores específicos. Moraes, por sua vez, nega ter praticado qualquer ato para beneficiar Vorcaro. Como o mérito do procedimento ainda não foi decidido pelo Supremo, não é possível apresentar as mensagens como comprovação de favorecimento ou de conduta irregular. Até que o conjunto das provas seja examinado pelas autoridades competentes, o dado novo amplia os questionamentos sobre a relação operacional envolvendo as aeronaves, mas permanece sujeito à apuração e ao contraditório.



