A planta que está surpreendendo os oftalmologistas? Entenda o que realmente se sabe sobre essa promessa para a visão

Uma imagem de uma planta de folhas grossas e aromáticas vem chamando a atenção nas redes sociais ao ser apresentada como uma espécie capaz de melhorar a visão e até ajudar pessoas que sofrem com catarata. A publicação sugere que milhares de pessoas que utilizavam óculos teriam recuperado a visão graças a um suposto “remédio natural”. A afirmação parece atraente, principalmente para quem procura alternativas aos tratamentos convencionais, mas é importante separar o uso tradicional das plantas daquilo que já foi comprovado pela ciência. A espécie mostrada na imagem é frequentemente associada ao Plectranthus amboinicus, conhecido popularmente em diferentes regiões por nomes como hortelã-grossa, malvarisco ou orégano-cubano. Estudos científicos realmente investigam seus compostos e possíveis propriedades, mas isso não significa que a planta seja capaz de eliminar catarata ou substituir uma avaliação oftalmológica.
O interesse por essa planta não surgiu do nada. Pesquisas descrevem a presença de diferentes compostos bioativos em suas folhas, incluindo flavonoides, ácidos fenólicos e outras substâncias estudadas por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Uma revisão científica publicada em 2025 reuniu informações sobre os usos tradicionais e experimentais do Plectranthus amboinicus e encontrou resultados relacionados principalmente a atividades antimicrobianas, anti-inflamatórias, antioxidantes e outras possibilidades terapêuticas. No entanto, os próprios pesquisadores ressaltam a necessidade de novos estudos e ensaios clínicos para determinar quais desses efeitos realmente podem ser utilizados com segurança e eficácia em seres humanos. Portanto, existe uma diferença importante entre uma planta apresentar substâncias interessantes em pesquisas laboratoriais e comprovar que ela trata uma doença específica dos olhos.
A catarata, por exemplo, não é simplesmente uma irritação ou uma deficiência de vitaminas. Ela ocorre quando o cristalino, a estrutura transparente localizada dentro do olho, fica progressivamente opaco, dificultando a passagem adequada da luz e deixando a visão embaçada. Com o avanço do problema, atividades como ler, dirigir e assistir televisão podem se tornar mais difíceis. De acordo com o National Eye Institute, a cirurgia é atualmente a única maneira de remover uma catarata já formada. Em casos iniciais, algumas medidas podem ajudar a lidar com os sintomas, como melhorar a iluminação, reduzir o excesso de brilho e atualizar os óculos, mas essas estratégias não retiram a opacidade do cristalino.
Isso também ajuda a entender por que é preciso ter cuidado com receitas caseiras envolvendo os olhos. Preparar chá ou infusão de uma planta pode ser muito diferente de colocar essa preparação diretamente nos olhos. Mesmo uma espécie utilizada tradicionalmente pode conter substâncias capazes de provocar irritação, alergia ou outros problemas quando aplicadas de maneira inadequada. Óleos essenciais e extratos concentrados também não devem ser confundidos com o simples uso culinário ou tradicional das folhas. No caso de sintomas como visão embaçada, dificuldade para enxergar à noite, aumento da sensibilidade à luz, percepção de halos ou mudanças persistentes na visão, o caminho mais seguro é procurar um oftalmologista para descobrir a causa. Esses sinais podem estar relacionados à catarata, mas também podem aparecer em outras condições que precisam de avaliação específica.
Curiosamente, a própria ciência está investigando novas possibilidades para tratar a catarata sem cirurgia, mas isso ainda está em uma etapa muito diferente das promessas encontradas nas redes sociais. Pesquisadores apoiados pelo National Eye Institute identificaram uma proteína chamada RNF114 que conseguiu reverter alterações relacionadas à catarata em estudos realizados com animais. O resultado foi considerado promissor para futuras estratégias de tratamento, porém não significa que exista atualmente um medicamento natural disponível para pessoas com catarata. A pesquisa científica ainda precisa avançar para determinar se uma abordagem desse tipo poderá ser segura e eficaz em seres humanos.
Por isso, a planta da imagem pode até ser interessante do ponto de vista nutricional, tradicional e científico, mas não há evidência clínica suficiente para afirmar que ela recupera a visão de pessoas com catarata ou elimina a necessidade de óculos. Até mesmo pesquisas sobre nutrientes e saúde ocular mostram que resultados específicos não podem ser generalizados para qualquer planta ou suplemento: por exemplo, os estudos AREDS/AREDS2 do National Eye Institute foram desenvolvidos principalmente para degeneração macular relacionada à idade e não demonstraram que suas formulações impedissem a catarata. Assim, a melhor maneira de cuidar da visão continua sendo manter consultas oftalmológicas regulares, controlar fatores de risco e buscar orientação profissional diante de qualquer alteração. A natureza pode oferecer substâncias interessantes para a pesquisa, mas uma promessa de “recuperar a visão” merece sempre ser analisada com bastante cuidado antes de virar tratamento.



