Seu corpo sabe quando a morte se aproxima? Entenda o que realmente pode acontecer com o nariz e o olfato

A ideia de que “o corpo sabe quando a morte se aproxima e tudo começa pelo nariz” chama atenção, mas a realidade é mais complexa do que essa frase sugere. O organismo realmente passa por mudanças importantes durante os últimos dias ou horas de vida, especialmente quando a pessoa já está em uma condição de saúde muito debilitada. Entre essas alterações podem estar mudanças na respiração, na alimentação, na circulação, no nível de consciência e até no odor do hálito, da pele e dos fluidos corporais. Porém, não existe evidência de que o nariz consiga prever sozinho que uma pessoa está prestes a morrer.
O olfato, por sua vez, é um sentido bastante sensível e pode sofrer alterações por diversas razões. Infecções respiratórias, sinusite, alergias, pólipos nasais, alguns medicamentos e outras condições podem modificar a maneira como uma pessoa percebe os cheiros. Em determinadas situações, ocorre perda parcial ou total do olfato, enquanto algumas pessoas passam a sentir odores que não estão presentes ou percebem cheiros de maneira diferente. Por isso, uma mudança repentina no olfato não deve ser interpretada automaticamente como um sinal de que a morte está próxima.
Existe, entretanto, um fenômeno real relacionado aos últimos momentos da vida que pode explicar parte das histórias compartilhadas na internet. Quando o organismo está muito debilitado, alterações metabólicas podem modificar o cheiro do hálito, da pele e dos fluidos corporais. Uma orientação de cuidados paliativos do sistema de saúde britânico descreve que algumas pessoas podem apresentar um odor característico, semelhante ao de removedor de esmalte, relacionado a mudanças no metabolismo. Isso pode acontecer nos últimos dias de vida, mas não é um sinal exclusivo nem permite determinar exatamente quanto tempo a pessoa tem.
A ciência também estuda os odores liberados pelo corpo depois da morte. Pesquisadores já identificaram centenas de compostos orgânicos voláteis associados à decomposição humana, incluindo substâncias contendo enxofre e nitrogênio. Esses compostos ajudam a explicar o chamado “odor da morte” e são importantes para pesquisas forenses e para o treinamento de cães farejadores. Mas é fundamental não confundir esse fenômeno com uma suposta capacidade humana de sentir antecipadamente a própria morte pelo nariz. Os estudos analisam principalmente alterações químicas associadas ao processo de decomposição, e não um mecanismo capaz de prever a morte antes que ela aconteça.
Outro ponto interessante é que pesquisas epidemiológicas encontraram uma associação entre perda do olfato e maior risco de mortalidade. Uma revisão sistemática com mais de 21 mil participantes observou que alterações olfativas estavam associadas a maior mortalidade por todas as causas. Isso, porém, não significa que perder o olfato seja uma “previsão” de morte. A alteração pode funcionar como um marcador de saúde geral ou envelhecimento biológico e pode estar relacionada a diferentes doenças e condições. Portanto, uma pessoa que percebe mudanças persistentes no olfato deve procurar avaliação médica para investigar a causa, em vez de concluir que está diante de um sinal inevitável do fim da vida.
No fim, a frase da imagem tem um fundo de verdade apenas quando entendida dentro do contexto dos cuidados de fim de vida, mas exagera ao afirmar que “tudo começa no nariz”. Nos últimos dias ou horas, podem ocorrer redução do apetite, sonolência, alterações na respiração, mudanças na circulação, mãos e pés frios e modificações no odor corporal. Esses sinais aparecem principalmente em pessoas que já estão em processo de morte por uma doença ou condição grave e devem ser avaliados pela equipe responsável pelos cuidados. Portanto, mudanças no cheiro do corpo ou no olfato, isoladamente, não permitem prever a morte e não devem ser usadas como diagnóstico.



