Curiosidades

Por que as pessoas pareciam tão magras nos anos 70? A verdade pode surpreender

Fotos antigas costumam provocar uma impressão curiosa. Basta olhar para imagens de famílias, praias, festas ou ruas dos anos 1970 para perceber que muitas pessoas parecem ter um corpo mais magro do que o padrão observado atualmente.

Daí surge uma pergunta que se tornou bastante popular: as pessoas realmente eram mais magras naquela época ou as fotografias estão enganando nossa percepção?

A resposta é mais complexa.

De fato, os dados históricos mostram que a prevalência de obesidade era menor décadas atrás, especialmente quando comparada às últimas décadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a obesidade entre adultos de 20 a 74 anos estava em torno de 15% em 1976–1980 e chegou a 30,9% em 1999–2000.

Mas isso não significa que todo mundo nos anos 70 fosse magro, nem que existisse uma única explicação para a diferença.

O que mudou foi uma combinação de alimentação, tamanho das porções, bebidas açucaradas, disponibilidade de alimentos ultraprocessados, hábitos cotidianos e, em muitos contextos, a quantidade de movimento incorporada à rotina.

As fotos antigas não contam toda a história

Antes de analisar a alimentação dos anos 70, existe um detalhe importante.

As fotografias que vemos atualmente não representam necessariamente uma amostra aleatória da população daquela época.

Fotos de férias, casamentos, encontros familiares e propagandas costumavam registrar momentos específicos. Além disso, imagens antigas podem ter sido selecionadas justamente porque mostram pessoas, roupas e ambientes considerados interessantes.

Também existe uma diferença de percepção causada pelas roupas.

Calças de cintura alta, camisas mais largas, vestidos estruturados e outros estilos dos anos 70 podem alterar visualmente as proporções do corpo.

Portanto, não é correto concluir que todas as pessoas eram magras apenas olhando para fotografias antigas.

Mas os dados populacionais mostram que havia, sim, uma diferença real na prevalência de obesidade.

O número de pessoas com obesidade aumentou muito depois

Os levantamentos nacionais dos Estados Unidos permitem observar essa transformação ao longo das décadas.

Entre 1976–1980 e 1988–1994, a prevalência de obesidade entre adultos de 20 a 74 anos aumentou de 15% para 23,3%. Em 1999–2000, chegou a 30,9%.

O CDC também documentou aumento expressivo durante o período de 1971 a 2000, enquanto o consumo médio de energia aumentava e a proporção de calorias provenientes de gordura diminuía.

Essa última informação é especialmente interessante porque derruba uma explicação simplista:

não foi simplesmente “as pessoas passaram a comer mais gordura”.

A história é muito mais complicada.

A alimentação começou a mudar

Uma das principais transformações ocorreu na oferta de alimentos.

Ao longo das décadas, alimentos industrializados ficaram cada vez mais disponíveis, baratos, convenientes e presentes na rotina.

Refrigerantes, biscoitos, salgadinhos, cereais açucarados, sobremesas industrializadas, refeições prontas, fast-food e outros produtos passaram a ocupar uma parcela maior da alimentação.

Uma revisão histórica sobre a epidemia de obesidade nos Estados Unidos aponta justamente para mudanças importantes na alimentação a partir do final dos anos 1970 e destaca o crescimento do consumo de bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados.

Isso não significa que os alimentos ultraprocessados sejam a única causa da obesidade.

O próprio estudo ressalta que ainda existem questões em aberto sobre a contribuição relativa de diferentes fatores.

Mas existe uma mudança clara no ambiente alimentar.

As bebidas também fazem diferença

Imagine uma pessoa que, décadas atrás, tomava refrigerante ocasionalmente e outra que atualmente consome diariamente grandes quantidades de bebidas açucaradas.

A diferença parece pequena em uma única refeição.

Mas, repetida durante meses e anos, pode representar uma quantidade significativa de energia adicional.

Pesquisas reunidas em uma revisão sobre a origem da epidemia de obesidade apontam que o consumo de bebidas açucaradas aumentou consideravelmente entre o final dos anos 1970 e as décadas seguintes. Estudos experimentais e observacionais também associam o consumo dessas bebidas a maior ingestão energética e ganho de peso.

Isso ajuda a explicar por que olhar apenas para “comida” pode ser insuficiente.

O que se bebe também faz parte da equação.

Porções maiores mudaram a relação com a comida

Outro aspecto frequentemente esquecido é o tamanho das porções.

Quando uma porção maior é colocada diante da pessoa, existe uma tendência de consumir mais.

Ao longo das últimas décadas, porções maiores se tornaram comuns em restaurantes, lanchonetes e produtos industrializados.

Uma revisão sobre a epidemia de obesidade destaca justamente o aumento das porções, dos alimentos densos em energia, dos produtos ultraprocessados e dos lanches entre as refeições como possíveis componentes desse processo.

Isso ajuda a compreender por que comparar apenas o número de refeições pode ser enganoso.

Duas pessoas podem fazer três refeições por dia e consumir quantidades muito diferentes de energia.

Mas e o exercício? As pessoas se movimentavam mais?

Essa parte é mais controversa do que parece.

É comum ouvir que “antigamente todo mundo caminhava muito mais”.

Em algumas situações isso pode ser verdade.

As pessoas podiam caminhar mais para realizar tarefas, utilizar menos recursos automatizados e realizar atividades domésticas que atualmente exigem menos esforço físico.

Por outro lado, pesquisas históricas mostram que não existe uma resposta simples.

Uma análise clássica das tendências de peso e atividade física nos Estados Unidos encontrou aumento da obesidade mesmo durante períodos em que o consumo proporcional de gordura e a ingestão calórica relatada diminuíam. Os autores destacaram a importância da atividade física total e do gasto energético.

Outras análises posteriores apontaram que o aumento da ingestão energética provavelmente teve papel importante na epidemia, enquanto a redução da atividade física também contribuiu, embora a proporção exata entre os fatores continue sendo debatida.

Portanto, a frase “as pessoas eram magras porque caminhavam muito” é tão simplista quanto dizer que tudo aconteceu por causa de determinado alimento.

O mundo ficou mais conveniente

Talvez essa seja uma das maiores diferenças.

Hoje, muitas tarefas que exigiam movimento podem ser realizadas praticamente sem sair do lugar.

Compras podem ser feitas pelo celular.

Comida pode ser entregue na porta.

Elevadores substituem escadas.

Carros reduzem caminhadas.

Trabalho e entretenimento podem acontecer diante de uma tela.

Até tarefas domésticas se tornaram mais automatizadas.

Nenhuma dessas tecnologias é necessariamente ruim.

O problema aparece quando a conveniência reduz continuamente o gasto energético cotidiano sem que isso seja compensado por atividade física planejada.

A televisão também mudou a rotina

Nos anos 70, a televisão já fazia parte da vida de muitas famílias, mas o ambiente tecnológico atual é completamente diferente.

Hoje existe uma quantidade praticamente ilimitada de entretenimento disponível durante 24 horas.

Celular, computador, televisão, videogames e plataformas de streaming permitem permanecer sentado por períodos muito longos.

Isso cria um cenário em que comer e ficar parado podem acontecer simultaneamente durante horas.

E não é apenas uma questão de exercício.

Permanecer muito tempo em comportamento sedentário está associado a diversos desfechos negativos de saúde, especialmente quando acompanhado de baixos níveis de atividade física.

O curioso paradoxo da gordura

Existe outro detalhe histórico que surpreende muita gente.

Durante décadas, especialmente a partir dos anos 1970, ganhou força a recomendação de reduzir a quantidade de gordura da alimentação.

A indústria respondeu oferecendo uma variedade de produtos “light” e “low-fat”.

Mesmo assim, a prevalência de obesidade continuou aumentando.

Dados do CDC mostram que entre 1971 e 2000 a porcentagem de calorias provenientes de gordura e gordura saturada caiu, enquanto a ingestão média de energia aumentou.

Isso demonstra que olhar apenas para a quantidade de gordura não explica a evolução do peso corporal da população.

É possível reduzir a proporção de gordura e, ainda assim, aumentar a ingestão total de energia.

“Diet” não significa automaticamente saudável

A história dos alimentos com pouca gordura também ensina uma lição importante.

Um produto pode ter pouca gordura e ainda conter bastante açúcar, farinha refinada ou outros ingredientes que aumentam sua densidade energética.

Além disso, retirar gordura pode modificar sabor e textura, fazendo com que outros ingredientes sejam utilizados na formulação.

Portanto, escolher um alimento apenas porque a embalagem diz “baixo teor de gordura” não é suficiente para avaliar sua qualidade nutricional.

É melhor observar o alimento como um todo.

Os anos 70 também tinham alimentos pouco saudáveis

É importante não romantizar o passado.

As pessoas dos anos 70 comiam doces, frituras, refrigerantes, biscoitos, sorvetes, embutidos e outros alimentos que continuam presentes atualmente.

Também existiam pessoas com sobrepeso e obesidade.

A diferença é que o ambiente alimentar e os padrões de consumo eram diferentes.

Além disso, os recursos disponíveis para produzir, transportar, conservar e comercializar alimentos mudaram enormemente.

Portanto, não existia uma “dieta mágica dos anos 70”.

Nem todo mundo era magro

Esse ponto merece destaque.

Quando alguém diz que “naquela época todo mundo era magro”, está fazendo uma generalização.

Os próprios dados históricos mostram prevalência relevante de sobrepeso e obesidade antes dos anos 1980. Em 1976–1980, por exemplo, a obesidade já atingia aproximadamente 15% dos adultos americanos de 20 a 74 anos.

Ou seja:

a obesidade não nasceu nos anos 2000.

O que aconteceu foi uma expansão progressiva do problema ao longo das décadas.

A genética não mudou de uma hora para outra

Outra pergunta interessante é: se nossos genes são parecidos, por que o peso médio da população mudou tanto?

Porque a genética não é a única responsável pelo peso corporal.

A população humana não sofreu uma transformação genética radical entre 1970 e 2020.

O ambiente mudou muito mais rapidamente.

A disponibilidade de alimentos, os preços, a publicidade, o tamanho das porções, os padrões de trabalho, o transporte e as formas de entretenimento sofreram mudanças profundas.

Isso ajuda a explicar por que a obesidade é estudada também como um problema relacionado ao ambiente alimentar e comportamental.

O segredo talvez não esteja em “comer pouco”

É comum olhar para uma fotografia antiga e pensar:

“Eles simplesmente comiam menos.”

Pode ser parte da explicação em determinadas populações, mas essa conclusão não pode ser generalizada.

A quantidade de energia consumida depende de inúmeros fatores.

Além disso, alimentos diferentes produzem diferentes níveis de saciedade.

Uma refeição baseada em alimentos pouco processados, com proteínas, fibras e vegetais pode produzir uma experiência de saciedade diferente daquela proporcionada por produtos altamente palatáveis e densos em energia.

Um ensaio clínico famoso citado na literatura sobre ultraprocessados mostrou que participantes consumiram, em média, cerca de 500 kcal a mais por dia durante a fase de dieta ultraprocessada, apesar de as dietas terem sido planejadas para apresentar composição nutricional semelhante em diversos aspectos.

Isso não significa que todo alimento industrializado provoque ganho de peso.

Mas mostra como o grau de processamento pode influenciar o comportamento alimentar.

O que podemos aprender com aquela época?

Talvez não seja necessário tentar viver como alguém dos anos 70.

Não precisamos abandonar a tecnologia, voltar a cozinhar tudo em fogão a lenha ou eliminar completamente alimentos industrializados.

A lição mais interessante é outra.

Podemos recuperar alguns hábitos que eram mais comuns:

andar mais durante o dia;

cozinhar mais frequentemente;

comer frutas, legumes e verduras;

beber mais água e menos bebidas açucaradas;

evitar comer automaticamente diante das telas;

prestar atenção ao tamanho das porções;

reduzir o consumo frequente de ultraprocessados;

manter atividade física regular.

Essas atitudes são muito mais realistas do que tentar reproduzir exatamente o estilo de vida de meio século atrás.

O passado não era perfeito — e o presente também não precisa ser

Talvez a maior surpresa seja perceber que a diferença não pode ser explicada por uma única mudança.

Não foi simplesmente o açúcar.

Não foi somente a gordura.

Não foi apenas a televisão.

Não foi exclusivamente a falta de exercícios.

Foi uma transformação gradual de todo o ambiente em que as pessoas vivem, comem, trabalham e se divertem.

Os dados históricos mostram claramente que a prevalência de obesidade aumentou bastante a partir do final dos anos 1970 e nas décadas seguintes.

Ao mesmo tempo, pesquisadores continuam discutindo a importância relativa de fatores como ingestão energética, alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas, atividade física, sono, ambiente e outros elementos.

Afinal, por que as pessoas pareciam tão magras nos anos 70?

A resposta mais honesta é:

porque a sociedade era diferente.

Em determinados países e grupos populacionais, havia menor prevalência de obesidade, uma oferta alimentar diferente e padrões distintos de consumo.

As pessoas também viviam em um ambiente com menos opções de alimentos altamente processados e, em algumas circunstâncias, incorporavam mais movimento às atividades cotidianas.

Mas isso não significa que todo mundo fosse magro, que aquela geração tivesse uma alimentação perfeita ou que qualquer hábito dos anos 70 seja automaticamente melhor.

A grande transformação aconteceu gradualmente.

E talvez a principal lição seja justamente essa: nosso peso e nossa saúde não dependem de uma única comida ou de uma única atividade, mas do ambiente e dos hábitos que repetimos durante anos.

Em vez de tentar voltar no tempo, podemos escolher o que havia de positivo naquela rotina e adaptar essas práticas à vida atual.

Mais comida de verdade.

Mais movimento.

Menos bebidas açucaradas.

Menos ultraprocessados.

Mais atenção ao que colocamos no prato.

E, principalmente, menos procura por soluções milagrosas para um problema que é muito mais complexo do que parece.

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